
Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), o número de pessoas com 50 anos ou mais que ingressaram no ensino superior brasileiro passou de 58,4 mil em 2015 para 211,2 mil em 2024, crescimento de cerca de 262% na última década.
O avanço é maior conforme cresce a idade: entre ingressantes de 50 a 59 anos, passou de 51,2 mil para 176,3 mil (244,31%); entre os de 60 anos ou mais, de 7.171 para 34.965 (387,59%), a maior alta entre as faixas analisadas.
A expansão foi puxada sobretudo pela EaD privada, que passou de 27,8 mil ingressantes com 50 anos ou mais em 2015 para 169,7 mil em 2024, alta de 509,5%. A modalidade tinha 47,8% dos novos alunos da faixa e passou para 80,4%.
Somando as redes pública e privada, a EaD foi de 29,2 mil para 175,8 mil ingressantes 50+. No presencial, o número passou de 29,1 mil para 35,4 mil.
Mariela de Melo Guimarães, 49, é estudante de pedagogia no Centro Universitário UniBF, em Belo Horizonte. O EaD permitiu conciliar o curso com trabalho, casa e os pais, ambos com mais de 80 anos. "Um curso exclusivamente presencial, com horários rígidos, seria bem mais difícil para mim", diz.
A estudante já é formada em relações públicas e comércio exterior e diz que voltar a estudar perto dos 50 mudou sua relação com a sala de aula. "Tem uma bagagem de quase cinco décadas que entra na sala de aula comigo. E acho que isso torna o estudo muito mais rico."
Mariela diz relacionar as aulas às experiências de trabalho e família e avalia positivamente a convivência com colegas de outras idades. Para ela, tecnologia não traz dificuldades.
Maria Ligia de Oliveira Barbosa, coordenadora do Lapes (Laboratório de Pesquisa em Educação Superior), vinculado ao IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirma que esse movimento deve ser entendido como parte da diversificação do ensino superior brasileiro.
Mas ressalva que inclusão exige acompanhar a qualidade da formação. Para a pesquisadora, a graduação passou a atender adultos em busca de qualificação ou segundo diploma.
"Cursos de menor duração, horários noturnos, ensino a distância e ofertas que alcançam cidades fora dos grandes centros permitiram atender demandas que dificilmente caberiam no modelo tradicional de universidade".
Para a professora, mais oportunidades não eliminam desigualdades entre instituições, cursos e modalidades.
O avanço foi bem menor no ensino presencial. Na rede privada, o número de ingressantes com 50 anos ou mais passou de 22,9 mil para 26,5 mil, crescimento de 15,5%. No presencial público, aumentou de 6.192 para 8.958, alta de 44,7%.
O MEC (Ministério da Educação) instituiu novo marco para a EaD. Em nota, a pasta afirma que as regras buscam combinar acesso e qualidade; licenciaturas não podem mais ser integralmente a distância.
A mudança ocorre num cenário de evasão elevada: 41,6% dos alunos de cursos a distância abandonaram a graduação em 2024. No presencial a taxa foi de 24,8%, segundo o Mapa do Ensino Superior. Mais de 95% dos alunos matriculados em cursos a distância estudam em instituições privadas.
O levantamento mostra ainda que a evasão é mais elevada entre estudantes mais velhos. Em 2024, alunos com 50 anos ou mais tiveram a maior taxa de abandono, 23,4%.
Lúcia Teixeira, presidente do Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior), também relaciona a presença crescente de estudantes adultos à entrada mais tardia na faculdade e à procura por qualificação e requalificação profissional. Segundo ela, mensalidades mais acessíveis e a capilaridade explicam a maior presença na rede privada.
A separação entre esses públicos, no entanto, não nasceu com a atual expansão da EaD, afirma Helena Sampaio, professora do Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Educação da Unicamp e membro do conselho editorial do RUF. "Os cursos EaD hoje são os cursos noturnos dos anos 1970 e 1980."
Historicamente, instituições públicas concentraram cursos diurnos e integrais, atraindo jovens; a rede privada ampliou a oferta noturna para trabalhadores, casados e alunos com filhos.
A pesquisadora vê segmentação além da etária e defende que universidades públicas revejam a oferta, com cursos mais curtos, noturnos, híbridos e a distância, ligados ao trabalho.
A Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância) afirma que a maior presença na rede privada está ligada à quantidade de vagas e polos, à variedade de formas de ingresso e à presença dessas instituições em áreas onde a oferta pública é menor.
A presença de alunos com 50 anos ou mais também varia entre as áreas de formação. Pedagogia foi o curso com maior número de ingressantes nessa faixa etária em 2024, com 21,8 mil, contra 8.082 em 2015. Em seguida aparecem direito, com 8.601 ingressantes; psicologia, com 7.323; serviço social, com 7.243; e gestão de pessoas, com 6.039.
Entre as instituições, a Universidade Cesumar foi a que mais recebeu ingressantes com 50 anos ou mais em 2024, com 28.770 alunos nessa faixa etária. Eles representaram 6,26% dos 459,5 mil ingressantes da instituição.
Já na combinação entre instituição e curso, pedagogia na Universidade Pitágoras Unopar Anhanguera reuniu o maior número de ingressantes com 50 anos ou mais, com 3.582 alunos. O grupo era 4,76% dos 75.260 ingressantes do curso, todos na EaD, maior combinação do levantamento.
A Abmes (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior) afirma que instituições aperfeiçoam ambientes virtuais, materiais, tutoria e acompanhamento. Segundo a entidade, o desafio é aliar flexibilidade, qualidade e apoio para evitar abandono.