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Professores usam ações ambientais e fantasia de super-herói para ensinar alunos e ganham prêmio

Projetos realizados na Paraíba, no Amazonas e no Rio vencem prêmio de inovação no ensino

Portal SRN
Por: Portal SRN Fonte: Folha de São Paulo
15/10/2026 às 05h42
Professores usam ações ambientais e fantasia de super-herói para ensinar alunos e ganham prêmio
Imagem: Reprodução

No Cariri paraibano, a chuva não é apenas chuva. É a água que falta, a caminhada que pode ser evitada, o poço que talvez não precise ser cavado. Foi ouvindo histórias de moradores que dependem do inverno para encher suas reservas que o professor Alef Bruno dos Santos, 32, propôs aos alunos do ensino médio da Escola Cidadã Integral Serveliano de Farias Castro, em Caraúbas, investigar como aproveitar melhor cada gota que cai do céu.

A experiência rendeu a Alef um dos três prêmios da Rede CpE (Rede Nacional de Ciência para a Educação), que reconhece práticas inovadoras de ensino. Os vencedores recebem R$5.000 cada. A cerimônia de entrega acontece neste sábado (17), no Museu do Amanhã, no Rio.

O trabalho integra o projeto Sociobiodiversidade e Culturas Vivas, iniciado em 2024 com foco na desertificação da caatinga. No ano seguinte, a falta de água passou a orientar as atividades na escola paraibana. "Eu ficava me perguntando como o conhecimento que eu estava dando em sala de aula iria fazer sentido para os meus estudantes", diz Alef.

A primeira etapa foi observar as casas da região. A hipótese era que parte da água se perdesse durante o escoamento. Para testar uma alternativa, desenharam um telhado em V, com uma calha central para concentrar a água e conduzi-la ao sistema de filtragem.

Os estudantes construíram dois protótipos em pequena escala: um reproduzia o telhado convencional; o outro, o modelo proposto pelo grupo. Os dois receberam o mesmo volume de água. Segundo o professor, o sistema em V conseguiu captar uma quantidade maior.

O filtro desenvolvido pelos alunos utiliza camadas de cascalho, areia e carvão ativado, além de materiais para reter partículas. A proposta é que o equipamento tenha baixo custo e manutenção simples, permitindo que os próprios moradores cuidem do sistema antes de armazenar a água em cisternas.

Além da experiência paraibana, o prêmio reconhece iniciativas de educação ambiental e sustentabilidade no Amazonas e no Rio.

Em Manaus, as crianças da Creche Municipal Magdalena Arce Daou convivem de perto com os problemas ambientais que aprendem a reconhecer. Ao lado da instituição, um igarapé poluído corta uma área afetada pelo descarte irregular de lixo, por queimadas e enchentes.

Foi dessa realidade que a professora Maria Raquel Souza dos Santos, 45, partiu para ensinar educação ambiental na primeira infância. A proposta é mostrar, por meio de experiências e brincadeiras, como a degradação ambiental afeta a vida de suas famílias —e o que elas podem fazer para cuidar do lugar onde vivem.

Na creche, as crianças participam do cultivo de uma pequena agrofloresta, ajudam a regar as plantas e colhem frutos usados na merenda escolar. Do lado de fora, o projeto promoveu o plantio de mudas na margem do igarapé. A instituição também criou um jardim sensorial para crianças com deficiência.

O currículo da educação infantil, afirma Maria, permite abordar essas questões por meio de interações e brincadeiras. As crianças aprendem a reconhecer cores, sabores e texturas enquanto cuidam das plantas e acompanham seu crescimento. A colheita de acerolas, por exemplo, vira uma atividade coletiva: os alunos recolhem os frutos e, com as professoras, preparam suco.

A proposta também busca envolver as famílias e a comunidade escolar. O projeto reúne parcerias com universidades, órgãos municipais e associações de catadores.

A iniciativa nasceu também de um episódio que marcou o entorno da instituição. Segundo Maria, uma queimada irregular destruiu a vegetação que protegia a margem do igarapé. A perda da mata ciliar, somada ao acúmulo de resíduos, contribuiu para o agravamento das enchentes.

Uma das frentes do projeto é o plantio de cerca de 300 mudas na orla do igarapé. A manutenção do espaço conta com caminhões-pipa da Prefeitura de Manaus.

Maria estima que as atividades tenham alcançado cerca de 5.000 pessoas desde 2024.

Na Escola Municipal Maria Quitéria, em Bangu, na zona oeste carioca, Luziene Rosa Sobreira das Chagas, 44, teve a ideia de entrar em sala vestida de Batman quando percebeu que seus alunos não queriam estar ali. "Quando a gente ouve a criança, dá lugar de fala sobre questionamentos e reclamações, consegue perceber o que está acontecendo. Eles estavam certos. Era chato".

A passagem da educação infantil para o ensino fundamental, diz Luziene, costuma impor uma mudança brusca: a brincadeira dá lugar a longos períodos sentados, com menos espaço para o movimento e a expressão. Para mudar essa rotina, ela afastou as carteiras, reuniu os alunos no chão e começou a construir com eles um alfabeto de personagens conhecidos.

Ao apresentar o som da letra B, por exemplo, as crianças sugeriam palavras e personagens. Batman e Barbie disputavam a preferência da turma, que votava para escolher o tema das atividades. O alfabeto deu origem a músicas, vídeos, jogos e exercícios.

Quando percebeu que os alunos estavam mais envolvidos, Luziene decidiu ir além: vestiu uma blusa com o símbolo do morcego, improvisou uma capa e colocou uma máscara. "Eles gritavam, riam, não acreditavam. Ficavam: ‘Tia, mas é a tia, tia é o Batman’", conta.

A fantasia passou a integrar uma metodologia que combina atividades lúdicas com conhecimentos sobre alfabetização. A professora também confecciona acessórios para os estudantes e propõe jogos como bingo de letras, bingo silábico e diferentes modalidades de ditado.

Segundo Luziene, o envolvimento ajudou as crianças a reconhecer os sons das letras e a relacioná-los a palavras conhecidas. Antes da mudança, afirma, a aprendizagem avançava mais lentamente, e faltas frequentes dificultavam o trabalho.

Luziene prepara atividades individuais a partir dos interesses de cada aluno. As adaptações não significam, segundo ela, separar esses alunos do restante da turma. Enquanto os colegas escrevem palavras ou frases, as crianças que precisam de apoio realizam atividades compatíveis com o que já conseguem fazer.

A violência no entorno da escola impõe outro desafio. Tiroteios podem levar famílias a buscar os filhos antes do fim das aulas ou fazer com que a escola feche as portas. Quando isso acontece, as atividades planejadas para a semana são interrompidas e a frequência dos alunos cai, afirma a professora. "Aqui, muitos alunos já precisaram se esconder no cantinho da leitura por causa de tiroteios e explosões de granadas".

Janaína Weissheimer, coordenadora-geral da Rede CpE, afirma que levar boas práticas às escolas exige apostar em iniciativas testadas em menor escala e com potencial de transformar o cotidiano da sala de aula.

Segundo ela, a aproximação entre ciência e educação depende da troca entre pesquisadores e professores.

A iniciativa com professores está na terceira edição. Os participantes tornam-se "amigos da Rede" e têm acesso à formação continuada. A proposta é compartilhar as experiências desenvolvidas nas escolas para que possam ser replicadas em outros municípios e estados.

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