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Empresas sob pressão enfrentam dívida elevada e expectativa de queda mais lenta dos juros

Estudo revela que 26% das empresas de capital aberto não conseguem cobrir despesas financeiras, com destaque para a alta alavancagem no setor

Portal SRN
Por: Portal SRN
01/11/2026 às 09h33 Atualizada em 01/11/2026 às 11h40
Empresas sob pressão enfrentam dívida elevada e expectativa de queda mais lenta dos juros
Foto: Reprodução

A combinação de juros elevados e incertezas sobre a condução das contas públicas pode deixar as empresas brasileiras ainda mais pressionadas no próximo governo Lula. Se o presidente não avançar em soluções para conter o elevado crescimento da dívida brasileira, o ritmo de queda dos juros pode ser comprometido, seja por uma queda mais lenta ou até pela paralisação do ciclo de corte da Selic. E isso afeta diretamente a saúde financeira das empresas endividadas.

Segundo Ricardo Knoepfelmacher (mais conhecido como Ricardo K.), sócio da RK Partners, responsável pelas principais reestruturações no Brasil, a estimativa é que hoje mais de R$ 700 bilhões estejam em negociação com bancos e Fundos de Investimento em Direito Creditório (Fidc’s). Na avaliação dele, o estoque elevado de dívida talvez seja o maior problema atualmente.

“Com juros nominais e reais nas alturas há bastante tempo, muitas empresas acumularam um volume de dívida cujo custo financeiro compromete a geração de caixa”, diz o reestruturador. Um estudo realizado pela consultoria dá a dimensão da dificuldade enfrentada pelas companhias nesse ambiente de juro alto: 26% das empresas de capital aberto não têm capacidade de pagar nem as despesas financeiras com a própria geração de caixa operacional.

A indústria de transformação e o comércio concentram quase metade das companhias que não têm capacidade de pagar essas despesas. Não por acaso, elas são também as mais alavancadas. Ou seja, a relação dívida líquida/Ebitda é três vezes superior à geração de caixa anual operacional. Quanto maior esse indicador, maior o comprometimento da companhia com as dívidas.

Para entender como a situação chegou a esse ponto, é preciso voltar alguns anos. Entre 2016 e 2020, a taxa de juros entrou em um ciclo de queda e chegou ao menor patamar da história, de 2% ao ano, em agosto de 2020. O crédito barato estimulou empresas a tomar empréstimos para investir e expandir seus negócios. O problema é que, no meio do caminho, elas foram surpreendidas pela covid-19 e, consequentemente, com o forte recuo da demanda.

Durante a pandemia, muitas companhias tiveram problemas de caixa, mas conseguiram adiar a crise com crédito, renegociações e medidas emergenciais. A situação, porém, ficou mais difícil com a reversão da política monetária. A Selic saiu de 2% para 15% em 2025, e isso teve um efeito perverso nas contas das empresas, altamente endividadas.

O resultado dessa equação (juro alto e endividamento elevado) tem produzido, desde então, uma onda de recuperações judiciais e extrajudiciais. São vários os casos de companhias que entraram na Justiça com pedidos de recuperação judicial e extrajudicial ao longo dos últimos meses, como os casos de Braskem e Unigel. No varejo, os exemplos de dificuldade também se avolumam. A lista envolve Casas Bahia, Grupo Pão de Açúcar e o grupo Toky, dono da Tok&Stok e da Mobly. Mais recentemente, outras marcas famosas recorreram à Justiça, como foi o caso de Habib’s, Ri Happy e JAC Motors.

A expectativa é que essa lista aumente ainda mais nos próximos meses, afirma Cláudio Dasmasceno, sócio das consultorias RGF-Bizdoc. Na opinião dele, os pedidos de recuperação judicial devem continuar em alta. Isso porque os efeitos do custo elevado do crédito sobre as empresas demoram de um a três trimestres para aparecer, enquanto o avanço da inadimplência tende a se transformar, mais adiante, em insolvência.

Nos últimos meses, ele se debruçou sobre oito cadeias produtivas para projetar a expansão das recuperações judiciais até o fim do ano que vem. São elas: agronegócio, comércio varejista, química e petroquímica, transportes e logística, alimentos e bebidas, construção e engenharia, energia elétrica e gás e metalurgia e produtos de metal.

O trabalho apontou que, nessas oito cadeias, havia 4.581 empresas em recuperação judicial até 30 de junho. Esse número deve alcançar 5.554 no fim de 2027 no cenário base (Selic cai para 13,25% em dezembro e para cerca de 11,5% em dezembro de 2027). O aumento deve ser impulsionado sobretudo pelos setores de transportes e logística, seguido de metalurgia e produtos de metal e agronegócio.

O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, afirma que as empresas devem chegar ao fim do ano sob forte estresse financeiro, em um cenário de crédito restrito. Segundo ele, a perspectiva para a concessão de empréstimos depende, antes de tudo, das expectativas em relação à economia. “A concessão de crédito, assim como o restante das atividades da economia, depende, antes de qualquer coisa, da expectativa futura sobre o que vai acontecer. Se a expectativa é de melhora, porque tem um programa (fiscal) que permite pensar que a taxa de juros vai baixar, rolar a dívida a um custo razoável fica muito mais fácil do que estamos vendo hoje”, afirma.

Na avaliação do economista, as empresas enfrentam duas alternativas difíceis: conseguir renegociar ou renovar suas dívidas apenas a juros muito elevados, o que mantém os negócios sob risco financeiro, ou não obter crédito e acabar recorrendo à recuperação judicial.

Resultado das eleições pegou empresas no contrapé

A possibilidade de renegociar as dívidas a um custo menor, porém, depende também das expectativas em relação à política econômica do próximo governo. Nesse sentido, o resultado da eleição presidencial pegou boa parte das empresas e do mercado financeiro no contrapé. Com o senador Flávio Bolsonaro (PL) favorito na disputa do segundo turno, havia uma expectativa de que os juros pudessem recuar de forma mais acelerada caso ele saísse vitorioso da disputa.

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