
Uma investigação revelou que prefeituras brasileiras gastaram R$ 5 bilhões em shows musicais nos últimos dois anos. Mais de R$ 2 bilhões foram em municípios com notas ruins em indicadores financeiros --o que indica dívidas, fornecedores sem receber e salários atrasados.
É sobre o funcionamento desse mercado bilionário de shows públicos --seus cachês inflacionados, a ausência de licitação e a suspeita de desvios.
"Você conhece alguma cidade no Brasil que não precise mais investir em educação, em saúde, em transporte? Que seja tudo tão ótimo que não tenha o que melhorar?", provoca Toledo na abertura do episódio.
Mali detalha a situação de Quijingue (BA), em que a prefeitura decretou calamidade e cujos funcionários estão há mais de um ano com salários atrasados. Mesmo assim, a cidade quadruplicou a contratação de shows para a festa de São João.
"O Ministério Público tem uma série de documentos mostrando falta de medicamentos, restrição de horário das unidades de atendimento à saúde, falta de condições de trabalho, salas de atendimento mofadas... Há uma série de carências evidentes enquanto esses artistas estão sendo contratados", descreve o repórter.
A apuração mostra que todos os contratos levantados foram firmados por "inexigibilidade" --um mecanismo que dispensa licitação sob o argumento de que o artista é único.
Na prática, isso significa que o prefeito contrata quem quiser, sem concorrência, e os cachês variam de forma inexplicada.
O sertanejo Gusttavo Lima, por exemplo, recebeu R$ 900 mil de Petrolina e, no dia seguinte, R$ 1,2 milhão de Maceió pela mesma participação em 2024 em uma festa de São João.
Já o artista Leonardo, contratado 64 vezes por prefeituras por no máximo R$ 800 mil, recebeu R$ 2,3 milhões do estado de Roraima pela participação no Réveillon 2026.
Os jornalistas discutem o fato de a reportagem mostrar que a explosão dos shows é alimentada por emendas parlamentares, que chegam diretamente às prefeituras e viabilizam contratações que as cidades não teriam condições de bancar com recursos próprios.
A discussão inclui ainda as investigações em andamento no Ministério Público e uma condenação já proferida contra o ex-prefeito de Buri (SP) por improbidade administrativa.
Especialistas em contas públicas ouvidos pela reportagem, conta Mali, apontam que os contratos de inexigibilidade, sem licitação e com valores opacos, criam condições propícias para desvio --ainda que, na maioria dos casos, a trilha do dinheiro seja difícil de rastrear.