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Sem dinheiro para gastar, prefeituras pagam mais de R$ 2 bilhões em shows

Apesar dos problemas, a prefeitura decidiu aumentar o investimento em festas.

Portal SRN
Por: Portal SRN Fonte: Uol
21/03/2026 às 09h41 Atualizada em 22/03/2026 às 15h28
Sem dinheiro para gastar, prefeituras pagam mais de R$ 2 bilhões em shows
Imagem: Reprodução
 

A cidade acumulava salários atrasados e dívidas com fornecedores. Para conter custos, reduziu o número de médicos e o horário de atendimento nas unidades de saúde, onde faltavam medicamentos básicos. Servidores passaram a protestar.

Apesar dos problemas, a prefeitura decidiu aumentar o investimento em festas.

O município, que possui um dos piores PIBs per capita do Brasil (5.404º lugar entre 5.571 cidades), quadruplicou as despesas com os festejos de São João em 2025. Ampliou também as contratações para a festa de São Sebastião —que contou, em janeiro de 2026, com a dupla Zé Neto e Cristiano por R$ 854 mil.

Quijingue não é um caso isolado. Levantamento feito com dados do PNCP (Portal Nacional de Contratações Públicas) em cidades e estados mostra que 1.074 municípios em situação fiscal problemática gastaram ao menos R$ 2,1 bilhões com cachês de artistas nos últimos dois anos.

O levantamento considera cidades com classificação C ou D na Capag (Capacidade de Pagamento), índice do Tesouro Nacional que avalia a saúde financeira municipal com base no endividamento, na relação entre receitas e despesas e na situação de caixa.

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"Quase sempre [as que têm Capag baixo] são cidades mais pobres e com menor desenvolvimento humano. Deveria se investir mais no ensino e na assistência em saúde. Nada contra a cultura, mas investimento em saúde e educação básica dá mais resultados para cidades nessa situação", diz o economista José Roberto Affonso.

Os gastos reais tendem a ser significativamente maiores do que os R$ 2,1 bilhões identificados no levantamento, feito com o auxílio da ONG Transparência Brasil. Há uma série de lacunas nas informações do PNCP. Leia aqui como foi feito o levantamento.

Prioridades

"Foi um choque quando vimos as contratações de shows. O município é caloteiro e mesmo assim gasta milhões com artistas. Não somos contra as festas, mas primeiro paguem os trabalhadores", reclama Edenilson Soares, presidente do sindicato dos servidores de Quijingue.

O dirigente sindical afirma que, mesmo após a prefeitura gastar cerca de R$ 10 milhões em shows desde o início de 2025, muitos servidores seguem com os salários atrasados. O sindicato cobra o pagamento por meio de uma ação na Justiça e a prefeitura tenta um acordo.

Procurada pela reportagem, a administração municipal não se manifestou até a publicação deste texto.

Zé Neto e Cristiano posam com prefeito Romerinho (ao centro, de óculos) depois de show da dupla em Quijingue.
Zé Neto e Cristiano posam com prefeito Romerinho (ao centro, de óculos) depois de show da dupla em Quijingue. "Um dos lugares mais especiais do Brasil", postou a dupla, contratada por R$ 854 mil, metade do valor da nova UBS ainda em construção na cidade Imagem: Reprodução/Instagram @romerinhooficial

A contestação de shows se repete em diversos estados. Em Santa Bárbara do Tugúrio (MG), vereadores elencam dívidas com fornecedores da prefeitura, além de obras de captação de água e de uma UBS paralisadas. Ainda assim, o gasto com artistas segue em alta.

O prefeito reeleito, Donatinho (PSD), responde a ação por suposto superfaturamento na contratação de um show de Joelma em 2022, quando pagou R$ 265 mil. Tentou novamente contratá-la em 2024 e em 2025, por R$ 550 mil.

A vereadora Juselha do Sindicato (PT) uniu-se a outros colegas de Câmara Municipal e acionou o Ministério Público de Minas Gerais. O órgão ingressou com ações civis argumentando que o aumento das despesas com shows vinha ao mesmo tempo em que a cidade realizava cortes no Orçamento de Saúde e Educação.

A Justiça barrou, em 2024 e em 2025, as novas tentativas de contratar Joelma.

Isso não impediu, no entanto, o pagamento de outros cachês vultosos na cidade de 4.000 habitantes. De acordo com o PNCP, foram assinados nos últimos dois anos contratos com Calcinha Preta (R$ 600 mil), João Gomes (R$ 500 mil), Zezé Di Camargo (R$ 480 mil) e Amado Batista (R$ 390 mil), entre outros.

"Não há público que justificasse tanto dinheiro e tantos shows. Enquanto isso, a cidade não tem tratamento digno de água, temos unidade de saúde sem especialista e falta de remédios", diz Juselha.

Em nota, a Prefeitura de Santa Bárbara do Tugúrio declarou respeitar a decisão judicial que cancelou os shows, mas defendeu que os eventos culturais compõem a identidade do município e contam com patrocínios.

O Executivo municipal afirmou que, diferentemente de outras cidades, tem nota A de Capag (capacidade de pagamento). Apesar disso, não respondeu aos questionamentos sobre as obras de captação de água e de UBS (unidade básica de saúde) paralisadas. 

Casos semelhantes têm chamado a atenção dos Ministérios Públicos e dos Tribunais de Contas, que intensificaram a atuação para barrar as contratações lesivas ao erário.

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Arrochando o dinheiro público

Parte das investigações do Ministério Público se concentra na grande diferença de cachês entre apresentações dos mesmos artistas, o que pode indicar superfaturamento.

O levantamento identificou disparidades significativas nos valores praticados em diferentes cidades.

Gusttavo Lima é um exemplo. A contratação do sertanejo na festa junina de Petrolina (PE), em 22 de junho de 2024, custou R$ 900 mil. No dia seguinte, o show do artista em Maceió (AL) saiu por R$ 1,2 milhão.

O cantor Pablo, precursor do arrocha, se apresentou na festa junina de Paratinga (BA) em 2024 por R$ 220 mil. Em novembro de 2025, a apresentação dele na Expoferr Show, exposição agropecuária, em Boa Vista (RR) custou o quádruplo: R$ 900 mil.

No mesmo evento de Roraima, a gestão estadual pagou R$ 800 mil ao artista Natanzinho Lima, que, meses antes, havia recebido um cachê de R$ 250 mil no Carnaforró de Nossa Senhora da Glória (SE).

Natanzinho Lima se apresenta na Expoferr Show, em Boa Vista, em 5 de novembro de 2025
Natanzinho Lima se apresenta na Expoferr Show, em Boa Vista, em 5 de novembro de 2025 Imagem: William Roth - 5.nov.25/Divulgação Governo de Roraima

Roraima também foi o estado que pagou o maior cachê a um artista brasileiro no período -excluindo, portanto, os shows de Madonna e Lady Gaga em Copacabana.

No Réveillon de 2026, o cantor Leonardo recebeu R$ 2,3 milhões pela apresentação em Boa Vista. O sertanejo havia recebido, em média, R$ 660 mil nos 63 shows anteriores em 2024 e 2025.

Em nota, o estado diz que as contratações são regulares e que o fato de Roraima estar mais longe encarece as apresentações por causa de maiores custos de logística. Destaca ainda que Natanzinho Lima e Leonardo foram contratados com dinheiro de emendas parlamentares.

"Os shows estão diretamente relacionados às emendas [federais e estaduais]. A explosão das emendas criou uma indústria no Brasil em que municípios que não teriam condição fiscal passaram a contratar artistas renomados", diz Eduardo Grin, cientista político e professor da FGV.

Não é possível saber ao certo quanto de emenda é destinado para os shows. Embora decisões recentes do STF tenham melhorado o cenário, ainda há falta de transparência.

No levantamento, há menção à palavra "emenda" em R$ 45 milhões das contratações. Como a cidade não é obrigada a mencionar a origem do recurso, o dado é subnotificado.

Especialistas indicam que a diferença nos preços pagos pelos mesmos artistas em diferentes municípios pode esconder irregularidades. Sobretudo porque os contratos são feitos sem licitação e há pouca transparência sobre os itens incluídos.

"Esse modelo de contratação é um caminho frequente para caixa dois e para ilícitos", diz o especialista em contas públicas Murilo Viana. Os Ministérios Públicos de São Paulo e do Tocantins, por exemplo, abriram inquéritos civis em 2025 por suspeita de esquema desse tipo em shows de prefeituras.

Cachês afastam iniciativa privada

A percepção entre prefeitos é que o valor dos cachês explodiu nos últimos anos.

"É muito acima da inflação. Não dá para normalizar que um show que há um ano custava R$ 100 mil agora estejamos pagando R$ 500 mil", diz Pedro Freitas, prefeito de Aliança (PE) e presidente da Associação dos Municípios de Pernambuco.

A iniciativa privada, dizem os prefeitos, saiu nos últimos anos do papel de uma das principais financiadoras dos shows de São João.

Começaram a surgir muitas emendas, o preço do cachê subiu e as empresas privadas não conseguem pagar o valor que as prefeituras estão pagando.Wilson Cardoso, prefeito de Andaraí (BA), que preside a União dos Municípios da Bahia

Prefeitos baianos passaram a se reunir com o Ministério Público do estado, que publicou recentemente, a pedido deles, uma nota técnica para balizar as contratações. A iniciativa está sendo chamada de "São João sem milhão".

O documento sugere para o São João de 2026 um teto de R$ 700 mil por cachê e recomenda que as quantias pagas não ultrapassem a média do que o artista cobrou no ano anterior, corrigida pela inflação.

Para contratos que superem esse teto, o Ministério Público pede contrapartidas. "Comprovar saúde financeira, não estar em estado de calamidade, respeitar o limite de despesas da Lei de Responsabilidade Fiscal e estar com aplicação correta de recursos em saúde e educação", lista a promotora Rita Tourinho, à frente da iniciativa.

As diretrizes servirão de parâmetro para os municípios da Bahia, mas a adesão não é obrigatória. A ideia é que, em conjunto, os prefeitos consigam maior poder de negociação frente aos cachês altos.

Além dos municípios da Bahia, a mesma iniciativa tem sido discutida por associações de prefeitos de outros estados do Nordeste, como Ceará, Pernambuco e Paraíba.

Há também iniciativas de transparência como os painéis dos festejos juninos, informando os cachês pagos, na Bahia e em Pernambuco.

Outra iniciativa para controlar a "farra" dos shows veio do Congresso Nacional.

Em julho de 2025, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) apresentou o projeto de lei 3.364/2025, que estabelece 50% de artistas locais na contratação de shows e a divulgação, com ao menos 30 dias de antecedência de informações detalhadas sobre as contratações.

Desde 2024, as prefeituras divulgam informações no PNCP, mas há diversos problemas nos dados.

"Falta ter marcadores como se o recurso é de emenda ou de outras transferências. Também falta padronização e há baixa qualidade de dados", diz Juliana Sakai, diretora-executiva da ONG Transparência Brasil.

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