Pequenos montes de areia, cimento e brita se espalham por várias ruas da cidade, enquanto caminhões ainda entregam materiais para obras de reforma, expansão e construção de residências e imóveis destinados a abrigar algum tipo de negócio. Comércios, açougue, padaria, casa de games, lan house e até um hotel sinalizam mudanças em relação ao cenário observado em 2003, quando Guaribas, então a cidade com o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no país, foi palco do lançamento do programa Fome Zero.
“Até ali, vivíamos como povos originários, isolados do resto do mundo”, comenta a professora Glauzian Alves, que leciona português no Centro de Ensino Médio Integrado (Ceti) Paulo Freire. O isolamento do povoado, emancipado como município por lei estadual de 1995, era acentuado pela baixa qualidade das estradas, todas de chão. O asfalto só chegou em 2021, melhorando a logística e barateando bens de consumo e materiais em geral, diz o controlador-geral da prefeitura do município, Valdir Matias Maia.
Para alguns moradores, como Irineu Folha Maia, a opção havia sido abandonar a cidade e buscar outros meios de sobrevivência em São Paulo. “O motivo? Foi a fome”, diz ele. Nascido e criado em Guaribas, Maia partiu para a capital paulista aos 21 anos, em 2001, para se encontrar com o irmão e trabalhar na construção civil. “Trabalhei na entrega de concreto em obras, fui ajudante de bomba de concreto durante quatro anos e trabalhei mais dois anos como ajudante de obra”, conta ele, que só retornou a Guaribas em 2006 para se casar com Eldiene Matias. De volta a São Paulo, ele continuou na construção civil e ela trabalhou como balconista. “Não tinha a menor ideia de voltar [para Guaribas], mas as coisas começaram a mudar e percebi que quem tinha ido para São Paulo estava em situação pior do que aqueles que continuaram em Guaribas.”
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Maia comprou um ponto comercial em sua cidade natal e uma caminhonete D-10, que encheu de mercadorias adquiridas na rua 25 de Março, incluindo roupas, utensílios de cozinha, brinquedos e outros produtos, para abastecer sua primeira loja em Guaribas, que ganhou o nome da mãe, Bárbara. Vendeu a caminhonete, investiu numa churrascaria, conseguiu juntar um dinheiro e construiu, ele mesmo, um hotel na região central da cidade. Hoje, o Hotel Terraço tem 16 quartos e uma padaria no térreo, tocada pela esposa. O filho mais velho, Yuri, com 16 anos, foi selecionado e conseguiu uma bolsa do governo estadual para um curso público preparatório para o Instituto de Tecnologia da Aeronáutica e para o Instituto Militar de Engenharia (ITA/IME), em Teresina. “Comprei um apartamento de R$ 200 mil para o garoto morar, já que ele vai ficar três anos estudando na capital”, comemora Maia.
As mudanças foram mais visíveis no setor educacional, conforme atestam a professora Amanda de Souza Santos, do Ceti Paulo Freire, e Valdir Maia. “Até começo dos anos 2000, a cidade não tinha profissionais qualificados e formados no próprio município”, observa ele. Os professores vinham da vizinha Caracol e de São Raimundo Nonato, a 138 quilômetros dali. Também não havia escolas em número adequado, dizem Amanda e Glauzian. Os primeiros professores formados nas escolas de ensino médio da cidade começaram a dar aulas na segunda metade dos anos 2000, conta Natalícia Pereira Silva, que leciona língua estrangeira.
Professora de inteligência artificial, desenvolvimento de sistemas e administração com foco em empreendedorismo do Ceti Paulo Freire, Amanda improvisou para ensinar as primeiras turmas de IA, utilizando barbantes, cartolina, tesouras e outros materiais, já que a escola ainda não dispunha de computadores. Neste ano, a unidade foi premiada na primeira edição do Prêmio MEC de Educação na categoria de ensino médio integrado com ensino tecnológico.
Na sequência, em setembro, dois estudantes da terceira série do ensino médio da escola, Kaynan Ribeiro e Raí Matias, assinaram seu primeiro contrato de estágio remunerado com a Caju TEC, empresa de tecnologia para o setor de educação, que atua em Teresina e Parnaíba. Ambos sagraram-se vencedores do Seduckathon 2024, realizado pela Secretaria da Educação do Estado, e passaram uma temporada nos Estados Unidos, num intercâmbio na área de tecnologia.
As políticas públicas têm contribuído para que a situação do ensino venha melhorando, sugere Amanda. Ela destaca o programa Pé de Meia para estimular a frequência e permanência dos alunos no ensino médio público.
A rede do Sistema Único de Saúde (SUS) no município foi igualmente reforçada nos últimos anos, com a instalação de quatro unidades básicas de saúde (UBSs) e uma do Serviço de Atendimento Móvel e Urgência (Samu), contam Glauzian e Maia. A mortalidade infantil, nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baixou de 47 para 25 mortes a cada mil nascidos vivos entre 2010 e 2023, mas ainda corresponde ao dobro da taxa de 12,5 na média de todo o país.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que tinha atingido apenas 0,214 em 2000, havia avançado para 0,508 em 2010, dado mais recente divulgado pelo IBGE. Apesar de ter mais do que dobrado em uma década, o indicador estava abaixo do IDH de 0,650 registrado pelo Piauí e o do Brasil, que no mesmo ano ficou em 0,727.