
O Brasil comemorou no ano passado a redução da fome a patamares de 2013. Houve queda em todas as regiões, mas desigualdade regional persiste: Norte e Nordeste seguem com as taxas mais altas, com mais de uma em cada três famílias sob insegurança alimentar.
Média de lares em insegurança alimentar:
Os dados são do módulo Segurança Alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada na última sexta-feira pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísta).
Norte e Nordeste abrigam 35% da população, mas metade dos lares em insegurança alimentar do país: são 9,4 milhões, contra um total de 18,9 milhões em todo o Brasil.
Nas duas regiões, estão os 14 estados com as maiores taxas de insegurança alimentar. A maior é a do Pará (44,6%). A menor do país está em Santa Catarina (9,4%), na região Sul.

O Norte é a única região que teve estados em que a insegurança alimentar aumentou entre 2023 e 2024. "Uma hipótese forte é que isso foi um efeito das mudanças climáticas. No ano passado, a região sofreu muito com a seca", diz a pesquisadora da rede Penssan Rosana Salles da Costa. A única unidade da federação que registrou o aumento e não faz parte da região é o Distrito Federal.
Em relação à insegurança alimentar grave, a taxa da região Norte é praticamente o dobro da média nacional e quase quatro vezes maior que a da região Sul. Entre os estados, o líder é o Amapá, com 9,3% da população passando fome, seguido por Amazonas (7,2%) e Roraima (6,7%).
Historicamente, Norte e Nordeste têm particularidades que as afetam. O Norte por ter o maior percentual de população rural; o Nordeste, por ter boa parte de área de clima semiárido. É o que diz Rosana, da rede Penssan.
Na região Norte, as pessoas do campo são as que mais sofrem com a fome em todo o país: 4,6% dos lares da zona rural têm insegurança alimentar grave, contra 3% dos da zona urbana.
Já no Nordeste, as secas têm relação direta com a insegurança alimentar. "O acesso à água está ligado à alimentação adequada", diz Rosana, que também é professora de nutrição da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e está cedida à Secretaria Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do MDS (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome).

Segundo Rosana, o desempenho do Nordeste é melhor "por mais políticas locais, como restaurantes públicos e cozinhas comunitárias".
Diante da redução dos patamares da fome, um desafio que Rosana enxerga para o país é como chegar nas pessoas que ainda estão em condições mais graves de insegurança.
"Quando se reduz desigualdades, as pessoas que vão ficando nesse estrato de insegurança grave são as mais vulneráveis, mais difíceis de atingir com política pública. As pessoas em situação de rua, por exemplo, sequer aparecem nesses dados do IBGE. Mas o Brasil está avançando", avalia.
Já Ricardo Mota defende duas frentes para reduzir a desigualdade regional: