
O silêncio de Michelle Bolsonaro sobre a crise que assola seu enteado Flávio Bolsonaro há mais de uma semana coloca a ex-primeira-dama como a pessoa mais pragmática do clã.
Michelle tem um projeto próprio para a eleição de 2026. E há anos vive uma relação conturbada com os filhos de Jair Bolsonaro. Esse combo é apontado por aliados de ambos os lados como central para a ausência dela na pré-campanha de Flávio desde dezembro, quando ele anunciou ter sido escolhido pelo pai para a corrida presidencial.
Agora, Flávio enfrenta uma crise que pode afundar o seu projeto, e Michelle não fez nenhuma manifestação pública de apoio. No dia 13, o Intercept Brasil revelou que ele negociou R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro para financiar "Dark Horse", filme sobre o pai.
Ao sair de um evento na última terça, Michelle foi questionada por jornalistas sobre o tema e se limitou a dizer: "O Flávio, você tem que perguntar para ele". Pouco antes, Michelle havia feito um aceno ao ministro Alexandre de Moraes —considerado o algoz do bolsonarismo— durante seu discurso.
A decisão de manter o silêncio sobre a crise de Flávio embute a estratégia de manter a imagem de Michelle afastada de qualquer associação com o banco Master.
Nas raras ocasiões em que se manifesta sobre eleição, Michelle costuma dizer que está muito ocupada em cuidar da alimentação e da saúde de Jair Bolsonaro —que cumpre prisão domiciliar— e direciona seu foco para o apoio de suas aliadas.
O Datafolha trouxe certo alívio a aliados de Flávio. O nome de Michelle foi testado, mas teve desempenho semelhante ao do senador num hipotético segundo turno contra Lula: ela teria 43%, enquanto o presidente marcaria 48%. Já na simulação de primeiro turno, ela vai pior do que Flávio, marcando 22% enquanto Lula tem 41%.
Lula ampliou de 3 para 9 pontos a vantagem sobre o senador pelo PL do Rio na simulação de primeiro turno, marcando 40% ante 31% do rival. Há uma semana, Lula estava em empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais do levantamento: 38% a 35%.
Michelle construiu seu capital politico com base em dois grupos sociais cuja força eleitoral pode definir uma eleição presidencial: as mulheres e os evangélicos.
São setores do eleitorado que não se identificam prontamente com os filhos do ex-presidente. Para uma ala do PL, a participação de Michelle na campanha de Flávio pode ajudar a atrair esses votos; já outro grupo considera que o voto evangélico vai ser repassado automaticamente ao presidenciável, mesmo sem a atuação de Michelle.
O projeto da ex-primeira-dama para 2026 envolve concorrer ao Senado pelo Distrito Federal e ajudar a eleger um grupo de pessoas de sua confiança —mulheres na maioria— para o Legislativo.
Ela tem participado de articulações para palanques estaduais: vetou aliança do PL com Ciro Gomes (PSDB) no Ceará; apoiou Carol de Toni (PL) ao Senado em Santa Catarina, o que fortaleceu a deputada e atrapalhou uma estratégia para rifá-la do palanque local; e organizou um palanque feminino no Distrito Federal, tirando o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB), por exemplo, da jogada.
O distanciamento de Michelle em relação a Flávio também deixa evidente traços de um racha antigo das relações na família e que ficou exposto ao longo do último ano por causa da sucessão presidencial.
Os filhos mais velhos de Jair Bolsonaro —Flávio, Carlos e Eduardo— firmaram posição de que Michelle não seria a sucessora da família. Para o centrão, ela era a vice ideal de Tarcísio de Freitas (Republicanos) na chapa presidencial, mas a articulação não prosperou.
Aliados dos filhos de Bolsonaro costumam falar com desconfiança sobre Michelle. O tom geralmente demonstra uma disputa de espaço na dinâmica familiar e de poder na seara política.
Em novembro, quando ainda havia dúvidas sobre quem representaria o bolsonarismo nas urnas, Eduardo Bolsonaro disse que Flávio era mais preparado do que Michelle para disputar a Presidência da República.
Mas, apesar das desavenças familiares, aliados de Flávio dizem que ela vai participar da campanha e pedir votos ao enteado.