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'Sem voto', 51 senadores suplentes enviaram R$ 1,7 bi em emendas desde 2019

51 suplentes diferentes já exerceram mandato, em substituição a titulares —20 deles apenas na atual legislatura. O número chama atenção porque o Senado tem apenas 81 vagas.

08/03/2026 às 09h04 Atualizada em 09/03/2026 às 08h11
Por: Portal SRN Fonte: Uol
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Suplentes são presença frequente do Senado Imagem: Jefferson Rudy - 21.set.21/Agência Senado
Suplentes são presença frequente do Senado Imagem: Jefferson Rudy - 21.set.21/Agência Senado

Embora poucos se lembrem do nome do suplente do senador em que votaram, esses substitutos ocupam com frequência algumas das cadeiras do Senado Federal.

Desde 2019, 51 suplentes diferentes já exerceram mandato, em substituição a titulares —20 deles apenas na atual legislatura. O número chama atenção porque o Senado tem apenas 81 vagas. Um suplente de senador assume sempre que o titular se afasta do mandato, de forma temporária ou definitiva.

Somados, eles receberam cerca de R$ 27 milhões em salários no período e destinaram mais de R$ 1,7 bilhão em emendas.

Há também quem brigue e possa causar problemas ao titular, como Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e rompido com o clã do ex-presidente desde 2020.

Não à toa, a próxima chapa do PL ao Senado no Rio de Janeiro deve ter Rogéria Bolsonaro (mãe de Flávio) como suplente.

Diferentemente da Câmara dos Deputados (onde os suplentes são os seguintes na lista de mais votados de um partido), na casa alta eles não recebem votos nominais, mas são escolhidos a critério do senador titular.

Cada senador é eleito com dois suplentes registrados na chapa —que entram "de carona" na eleição do titular.

Esse modo de ingressar na política faz com que frequentemente sejam "menos qualificados, menos experientes, menos envolvidos com o Legislativo e mais outsiders", diz o cientista político Paulo Magalhães Araújo, estudioso do tema.

Levantamento do uol com dados das últimas duas legislaturas mostra que os suplentes têm menos experiência em cargos públicos, são mais ligados ao setor empresarial e tendem a acompanhar mais o governo de turno em votações, sugerindo menor conexão com o eleitorado.

Menos experiência

Também chamada de "casa revisora", o Senado concentra alguns dos políticos mais experientes do país.

Nas últimas duas eleições, só 7% dos senadores eleitos nunca haviam exercido cargos públicos. Os demais frequentemente foram governadores, deputados ou tiveram mandato anterior no Senado.

Entre os 51 suplentes que se sentaram na cadeira, porém, 36% não tinham experiência prévia. Quando tinham, era em funções de menor relevância.

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Araújo, da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo), monitorou o perfil dos suplentes por três décadas. Em estudo publicado em 2017, mostrou que os titulares tinham 17,1 vezes mais chances de já terem sido ministros e 8,7 vezes mais chances de terem governado um estado que os suplentes.

Para o pesquisador, os substitutos tendem a ter menor domínio do Regimento Interno e pouca influência entre os pares, resultando em baixa participação na Mesa Diretora, na presidência de comissões e em lideranças partidárias. "Afeta profundamente o jogo político", diz.

Essa fragilidade política e a menor conexão com as urnas podem explicar um governismo mais acentuado.

Dados de 2019 a 2025 mostram que os substitutos votam mais com o Planalto do que os titulares. No atual governo Lula, 86,7% dos suplentes seguiram a orientação do Executivo, contra 74,9% dos titulares.

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Dinheiro e poder

Outra distinção é a proporção de autodeclarados empresários: 43% entre suplentes, contra 13% dos titulares.

O risco, dizem pesquisadores, é uma sobrerrepresentação setorial não avalizada pelas urnas: com as saídas frequentes de titulares para cargos como o de ministro ou governador, a Casa ficaria com ainda mais interesses do empresariado representados.

Historicamente, a vaga de suplente funcionou como moeda de troca para financiar campanhas. Empresários ricos doavam para o titular e garantiam uma vaga, com a promessa de exercer alguns meses de mandato.

Esse cenário, contudo, mudou com o Fundo Eleitoral, que distribui bilhões aos partidos, reduzindo a dependência de doadores privados.

Outros modelos

A existência de senadores "sem voto" não é regra em muitas democracias presidencialistas.

Um estudo conduzido por pesquisadores do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) analisou 26 países em que os senadores são eleitos por voto direto.

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Em 18 deles (69,2%), a substituição do titular mantém algum vínculo com o eleitorado, seja por meio de nova eleição, eleição simultânea do suplente ou convocação do candidato seguinte da lista previamente registrada.

O Congresso já discutiu ao menos duas vezes a mudança do sistema brasileiro, mas a última proposta sobre o tema foi arquivada durante a reforma política de 2015.

Araújo diz que o país deveria ter "urgência" para mudar a regra de suplência e melhorar a representatividade do Senado.

Com partidos concentrados na eleição do Senado em 2026 e propostas de impeachment de ministros do STF (que são analisadas na Casa Alta) proliferando, o tema ganha ainda mais relevância.

"A gente aceita numa democracia representativa um agente político de suma importância sem voto. Isso é especialmente delicado no Senado, que só tem 81 membros. Um voto no Senado pode fazer toda a diferença. E esse voto pode ser de um suplente", defende o pesquisador.

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