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Madeira vira disputa política em São Raimundo Nonato e processo de cassação da prefeita Carmelita Castro volta à tona na mídia

Chefe da Serra da Capivara é envolvida no escândalo e processo de cassação da prefeita Carmelita Castro volta à tona na mídia

18/11/2019 07h30Atualizado há 3 semanas
Por: Redação Portal SRN
Fonte: André Pessoa - Fotos: Divulgação/PRF

Depois de uma grande operação da Polícia Rodoviária Federal (PRF), na região de São Raimundo Nonato/PI, uma espécie de protocolo que vinha sendo seguido há, pelo menos, 30 anos, foi modificado. Sempre que apreensões de cargas de origem florestal aconteciam nas rodovias nas proximidades do Parque Nacional Serra da Capivara, todo o material ilegal era doado para a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), entidade científica de renome internacional que administra a unidade de conservação federal em regime de cogestão com o ICMBio.

O material confiscado pelas autoridades ia diretamente para a instituição que não tem fins lucrativos e utilizava a madeira para construção, reparos, manutenção e ampliação da estrutura turística e de serviços existente na Serra da Capivara. Nessas três décadas nunca existiu denúncia ou irregularidade no uso das cargas apreendidas. A madeira era utilizada exclusivamente na reserva ambiental em benefício do uso público.

Com a posse de Sádia Castro na Secretaria Estadual do Meio Ambiente (SEMAR), os "protocolos" mudaram. Uma irmã dela, atual secretária municipal de Administração da Prefeitura de São Raimundo Nonato, Nayler Castro, fez um ofício para SEMAR solicitando que a madeira apreendida fosse doada ao município que é administrado por outra irmã, Carmelita Castro (PP), pois elas gostariam de utilizar o material nas escolas. "Nosso objetivo era fazer áreas de refeitórios, atividades de lazer e práticas artísticas para as nossas crianças", explicou Nayler.

Foto: Nathalia Carvalho/Viagora

No entanto, a realidade se mostrou diferente. Após a Prefeitura receber a carga, diversas instituições e moradores da microrregião começaram a fazer pedidos de parte da madeira. Igrejas, associações, ONGs, entre outras, enviaram ofícios para Prefeitura e também para o secretário de Meio Ambiente do município, André Landim, solicitando parte do material apreendido e doado ao município. "Não temos critérios para distribuição, as pessoas souberam dessa apreensão e começaram a nos procurar pedindo a madeira", disse a secretária de Administração.

Nos contatos que teve com a nossa reportagem, Nayler Castro foi prestativa e, mesmo em viagem, não se negou a responder as questões. Sua versão parece honesta e durante a apuração não surgiu detalhes que ela deixasse de explicar. Porém, erros foram cometidos. Redistribuir a madeira sem uma espécie de protocolo ou critérios técnicos acompanhados por entidades isentas, aumenta as suspeitas de uso político do material. Um desses pedidos que podem ser vistos com restrições, talvez até configurando conflito de interesses, trata-se de uma ONG que tem entre os seus sócios fundadores a atual chefe do Parque Nacional Serra da Capivara, Marian Rodrigues, e que ocupa um cargo na administração pública federal (Veja reportagem anexa).

Afinal, sem algum tipo de protocolo apenas os aliados da atual gestão seriam beneficiados. Ou alguém imagina que um adversário político iria tentar conseguir um pouco da madeira? Evidentemente que não, e isso traz um outro fator complicador. A atual prefeita Carmelita Castro teve o seu mandato cassado em primeira instância, e o cerne do processo na Justiça Eleitoral é exatamente o uso e abuso do poder econômico e político, idêntico ao que estava ou poderia acontecer com a distribuição da madeira.

Foto: Divulgação/PRF

Mesmo que a Prefeitura alegue meio contra os fatos que não iria distribuir a madeira entre populares, apesar dos pedidos, mas apenas com entidades da sociedade, a falta de critérios levanta suspeitas de uso político, mesmo que seja de forma indireta. Num áudio enviado por Nayler, ela explica, inclusive, que já estavam pensando em solicitar na SEMAR madeira de outras apreensões para construção de casas populares.

"Nosso objetivo era pedir que novas apreensões fossem doadas para São Raimundo Nonato e iríamos construir casas populares para diminuir esse aluguel solidário que pagamos para famílias carentes", justificou. O problema é que no próximo ano teremos eleições municipais e, sem critérios para distribuição da madeira, o uso político fica comprovado. De forma ingênua Nayler também esqueceu a ligação, digamos, impropria entre irmãs gerentes da coisa pública, uma como secretária estadual e a outra como gestora municipal.


Para piorar, a redistribuição da madeira apreendida com supostos aliados políticos, mesmo que travestidos de igrejas, associações ou ONGs, pode ter consequências indiretas no processo que a atual prefeita responde. Fica claro que as mesmas práticas adotadas na campanha eleitoral (caso sejam confirmadas pela Justiça em segunda instância), estavam, supostamente, sendo utilizadas agora pelo próprio Poder Público Municipal.

Interessada em resolver a questão da melhor forma possível, Nayler disse que faria a doação de toda a madeira para a FUMDHAM. Com o repasse da madeira, a Prefeitura teoricamente se isenta do uso político e, quando desejar fazer as obras para os estudantes, é só solicitar o material da instituição. Dessa forma, a sociedade terá uma organização séria, sem atuação política e de renome para controlar o uso da madeira, um bem público que pertence a toda à sociedade.  

Procurado para falar sobre o caso, o secretário municipal de Meio Ambiente de São Raimundo Nonato, André Landim, que acaba de se filar ao Partido Progressistas (PP), mas nega que será candidato a vereador nas próximas eleições afirmou: "Não posso responder algo que não fui eu q solicitei (sic). Só estou sendo claro. Se tivesse partido de mim eu responderia. Apenas fui armazenar e descarregar o material que nos foi repassado". garantiu. Landim também já tinha recebido muitos pedidos para distribuição da madeira.

Tentamos contatos com a atual secretária estadual do Meio Ambiente, jornalista Sádia Castro, mas ela não retornou nem indicou ninguém na SEMAR para falar. Foram enviadas três mensagens. Nelas pedíamos informações oficiais da secretaria em relação ao caso. O silêncio deixa mais suspeitas no ar. O Ministério Público Estadual deve investigar o caso.

Por André Pessoa
Reportagem Especial baseada em denúncia de populares

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