O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80, bateu o senador Flávio Bolsonaro(PL-RJ) e foi reeleito neste domingo (25) para seu quarto mandato, feito inédito na história brasileira.
Para projetar a vitória de um candidato, o Datafolha acompanha os dados da apuração divulgados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e, por meio de um sistema próprio, faz a projeção do resultado considerando o agrupamento de eleitores por mesorregião e natureza do município em cada estado.
Quando há um número razoável de votos apurados nesses agrupamentos, é possível estimar que um candidato não poderá mais ser ultrapassado e, portanto, projetar sua vitória.
Com 86,41% das urnas apuradas, o atual presidente tem 51,45% dos votos válidos no segundo turno da disputa, contra 48,55% do senador pelo PL do Rio, que não pode mais alcançar o petista, segundo o instituto.
A vitória ocorre após uma campanha acirrada, na qual Lula ficou em segundo lugar no primeiro turno contra o filho de seu antecessor e antagonista Jair Bolsonaro, que está preso por tentativa de golpe de Estado após perder o pleito de 2022 para o petista.
O dia da eleição refletiu a tensão, com o Supremo Tribunal Federal adiando de forma inédita a votação em todo o país por duas horas, após queixa da campanha do PT sobre obstáculos à liberação do transporte público em dez estados, inclusive os populosos São Paulo e Bahia.
A confusão teve tintas partidárias. Apesar de o problema ter sido apontado desde cedo, o ministro do Supremo Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral associado ao bolsonarismo, não se mexeu. Coube ao ministro Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, determinar o prolongamento da votação, sendo seguido pelo colega.
É a primeira vez que um candidato conseguiu tal virada no segundo turno desde o primeiro pleito presidencial direto da redemocratização, em 1989. Em 2014, Dilma Rousseff (PT) saiu atrás de Aécio Neves (PSDB) nas pesquisas do segundo turno e venceu, mas ela havia chegado em primeiro na rodada inicial.
Aos 81 anos a serem completados na próxima terça (27), Lula é o mais idoso ocupante do cargo na história. Com o triunfo deste domingo, somou sete disputas à Presidência, tendo ganhado quatro.
O triunfo do petista, que agora vai encarar o que salvo mudanças legais será seu último governo, foi definido nos momentos finais de uma campanha polarizada e uma reviravolta de tática no segundo turno.
A rejeição era a mais notável certeza do brasileiro ao ir às urnas, com cerca de metade do eleitorado dizendo não votar em cada um dos rivais.
Lula passou a campanha de segundo turno em modo mais olímpico, esquecendo que só bateu o então impopular Bolsonaro no segundo turno de 2022 por menos de 2 pontos percentuais.
Só acordou para o embate nos estertores da corrida, contando com anúncios eleitoreiros como a proibição das bets ou o reajuste do Bolsa Família, além da celeuma em torno de Nossa Senhora, que impulsionaram o voto em segmentos como mulheres periféricas e católicos.
Já Flávio apostou no antipetismo e aproveitou-se da crise na cúpula do Judiciário, primeiro acerca das relações de ministros ligados a Lula com o caso Master, depois com a interferência que levou ao cancelamento do debate da TV Globo antes do primeiro turno.
Vencedor na primeira rodada por 47,03% a 45,16% dos votos válidos, foi a vez de o senador adotar o salto alto. Falou como eleito, viu alianças consolidadas à direita e nomes de seu ministério serem especulados, e sugeriu uma obscura mudança constitucional para "redemocratizar o Brasil".
O presidente, após uma primeira semana lavando roupa suja com aliados, mudou o comando da campanha e entregou a estratégia digital para o deputado André Janones (Rede-MG), que montou o canal de WhatsApp "Exército do Lula", que chegou ao pleito com mais de 10 milhões de seguidores.
Flávio tentou bloquear o canal com o auxílio do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, ministro indicado por seu pai. Houve idas e vindas, mas ao fim o "Exército" operou até o fim.
Em paralelo, o risco da volta de um Bolsonaro ao poder acordou a militância à esquerda e os centristas que em 2022 também haviam votado em Lula. Começando por estudantes, o segundo turno foi coalhado de manifestações enormes e mais orgânicas, sem a tradicional organização de sindicatos, desafiando a primazia da direita nas ruas, que vinha desde dos atos de 2013.
Os rivais ainda se enfrentariam duas vezes ao vivo, algo inédito, nos debates da Band e da Globo. Primeiro encontro foi marcado por grosserias e baixo nível, que se transmutaram em agressividade com mais comedimento no segundo, ocorrido na noite de sexta (23).
Nada indica que Lula terá paz até a subida da rampa do Planalto, em janeiro. Um foco especial de atenção do governo é a administração Donald Trump, presidente americano que tem uma relação ciclotímica com o petista e é próximo do bolsonarismo.
Integrantes do governo passaram o pleito gritando lobo, apontando para indícios de que Trump iria trabalhar em favor de Flávio. Afinal, a eleição de governos populistas de direita nas Américas é um plano declarado do republicano em sua Estratégia de Segurança Nacional.
Na prática, o americano nada fez para apoiar Flávio, deixando a suspeita de ingerência estrangeira na mão da big tech Meta, investigada pelo TSE por tratamento diferenciado a conteúdos de Lula.
Resta saber agora se o pragmatismo na negociação em torno do tarifaço americano contra o Brasil, que seguiu mesmo com a turbulência eleitoral e o trabalho ativo nos EUA contra Lula de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, será mantido.
Ainda mais importante, o presidente eleito tem agora dois meses para tentar aplainar as grandes tensões políticas e econômicas. Terá certamente o apoio das siglas que já ajudam a sustentar seu governo, como o empoderado PSD de Gilberto Kassab e o MDB, e também de alas do centrão.
Não será tarefa simples, a começar pela bomba-relógio no Judiciário. O pleito indicou claramente a divisão entre ministros lulistas e bolsonaristas.
Parece difícil uma solução simples para o imbróglio, ainda mais com uma bancada à direita robustecida no Senado, Casa onde impeachment de ministros da corte pode ser apresentado.
Na economia, o mau humor do mercado com o caráter gastador de Lula 3poderá se ampliar se não houver sinalizações de algum tipo de austeridade, algo que passou longe do discurso da campanha —ao contrário.
Diferentemente de 2022, desta vez não haverá a boa vontade no Congresso para passar uma PEC assinando um cheque em branco para o governo de largada.
Em outra frente, ainda há respingos eventuais do caso Lulinha, envolvendo o mais exposto dos cinco filhos desse líder sindical nascido em Garanhuns (PE), algo incerto —na eleição, não houve impacto significativo.
Para o bolsonarismo, a derrota de Flávio vai levar a uma disputa por protagonismo no campo da direita.
Um ano atrás, o senador não era considerado um sucessor natural do pai, que acabara de ir à prisão. Nomes da órbita bolsonarista, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), eram vistos como opções que inclusive aglutinariam apoios mais amplos no centro e no centrão.
Com efeito, a unção que o senador recebeu do ex-presidente preso em 5 de dezembro de 2025 foi recebida com ceticismo por líderes até do seu próprio PL. Se o candidato do clã teria de ter o sobrenome de Jair, a ex-primeira-dama Michelle parecia uma figura mais palatável.
O senador fluminense, eleito em 2018, era visto como pesado eleitoralmente devido à coleção de escândalos associados a seu nome —e sua relação próxima com o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, ainda nem havia sido revelada.
Hoje ele é investigado pelas suspeitas acerca do dinheiro que pediu para a cinebiografia "Dark Horse" e pela relação com lavagem de dinheiro com bets. Já havia contra ele acusações de rachadinha nos seus quatro mandatos como deputado estadual no Rio, dúvidas acerca de seu patrimônio e a relação próxima com milicianos.
Sem mandato, Flávio perderá espaço de articulação, e Tarcísio, reeleito no primeiro turno batendo novamente o herdeiro presumido de Lula, Fernando Haddad (PT), está na linha de largada para ocupar o vácuo até 2030.
Por outro lado, o ativo do sobrenome Bolsonaro se mostrou forte, dada a competitividade do senador e o desempenho de candidatos associados ao grupo Brasil afora. O Congresso e os estados têm mais coloração à direita. A polarização que domina a vida política brasileira desde 2018 pode até ganhar nuances, mas seguirá viva.
A vitória também dá um respiro ao PT, que experimentaria uma hecatombe com a eventual derrocada de seu líder histórico. Lula nunca quis sombra, e mesmo Haddad é empregado como mais como um fiel escudeiro do que como um herdeiro de fato.
Agora, sem mandato constitucional após 2030, Lula terá de organizar sua sucessão. Ela passa por sua
aliança mais imediata também, restando saber que papel haverá para o vice Geraldo Alckmin e seu PSB.
Nas últimas semanas, o presidente tem falado crescentemente em legado, a acreditar que ele realmente vai se retirar em 31 de dezembro de 2031.
Chegando lá, ele só perderá para Getúlio Vargas, de quem se vê um sucessorespiritual na psiquê brasileira, em tempo de serviço no poder: 16 anos ante 18 anos e meio do gaúcho.
Para alguns aliados, a perspectiva é garantia de um mandato mais livre, talvez dado a inovações que gerem marcas que ficaram ausentes na sua cinzenta terceira passagem pelo Planalto.
Outros temem uma guinada final à esquerda, inspirada principalmente pelo que esses petistas veem como influência excessiva da primeira-dama, Janja, que rebate a crítica acusando misoginia. Seja como for, um movimento mais brusco iria causar atritos, em especial se a degradação das contas públicas seguir acelerada.
Um problema adicional se relaciona à crise do Supremo. Desde que assumiu sob o impacto do 8 de Janeiro e a insurgência bolsonarista, Lula firmou uma aliança tática com o Supremo —mais precisamente, com parte da corte, como se vê agora.
Mas o tribunal está em convulsão, e parece improvável que possa assumir o papel de contrapeso em favor do Executivo que vinha exercendo ante um Congresso Nacional que era hostil, e agora será ainda mais, a Lula.