O candidato Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)se enfrentaram nesta sexta-feira (23) no debate da TV Globo, o último antes do segundo turno, que acontece no próximo domingo (25).
Os candidatos apresentaram propostas e defenderam suas trajetórias, falando de corrupção, comparação das gestões petistas contra a de Jair Bolsonaro (PL) e segurança pública.
Flávio Bolsonaro e Lula abriram o debate com divergências sobre infraestrutura.
O senador afirmou que o país voltou a ser um “cemitério de obras”, citando milhares de empreendimentos paralisados, e prometeu ampliar ferrovias, concessões e internet, com pedágio gratuito para motociclistas.
Lula rebateu com investimentos que, segundo ele, somam R$ 1,7 trilhão, mencionando a Transnordestina e o túnel Santos-Guarujá. “Em nenhum momento na história do Brasil se investiu tanto em infraestrutura”, declarou o presidente.
Na discussão sobre o Sudeste, Lula defendeu a política de valorização do salário mínimo e afirmou que, sem os reajustes promovidos pelo PT, o piso seria de R$ 900.
“Como pode alguém querer ser presidente da República se nem sabe o salário mínimo?”, questionou.
Flávio prometeu aumentos acima da inflação e atribuiu o endividamento e o custo de vida aos gastos federais. Cobrado sobre transporte, respondeu: “Sou a favor da tarifa zero nos fins de semana”. Também criticou a tributação prevista na reforma tributária.
Ao abordar o agronegócio no Centro-Oeste, Flávio questionou o acesso dos produtores ao crédito, criticou a burocracia do Plano Safra e prometeu tecnologia, proteção à aposentadoria rural e um pacto com governadores contra o crime organizado nas fronteiras.
“Não adianta ter investimento grande”, afirmou, argumentando que agricultores enfrentam dificuldades. Lula sustentou que sua gestão ampliou os recursos para o setor e as exportações. “Não tem um segmento da agricultura que não tenha obtido mais recursos”, declarou, defendendo ainda a diversificação dos mercados compradores.
Na discussão sobre o Sul, Lula criticou a proposta de “tesouraço” e cobrou compromissos com aposentados.
Flávio respondeu que preservará Caixa, Banco do Brasil e Petrobras e prometeu: “Vou reajustar as aposentadorias acima da inflação”. O senador defendeu medidas de ajuste econômico, citou a gestão de Javier Milei na Argentina e acusou Lula de abandonar o Rio Grande do Sul nas enchentes de 2024. Também prometeu apoio em tragédias, combate ao tráfico no Paraná e investimentos nas rodovias de Santa Catarina.
Sobre o Norte, Flávio defendeu a universalização do saneamento até 2033, obras de pavimentação, fortalecimento da Zona Franca de Manaus e atração de centros de processamento de dados. “Vou garantir a autonomia dos povos indígenas sobre suas terras”, afirmou.
Lula destacou o Fundo Amazônia e a preservação ambiental: “Hoje a economia verde pode trazer muito mais dinheiro para a floresta em pé do que caída”. O presidente também criticou a atuação de Jair Bolsonaro na crise de oxigênio em Manaus; Flávio negou que o pai tivesse zombado das vítimas.
No Nordeste, Lula enumerou investimentos em institutos federais, indústria e mobilidade e cobrou realizações da gestão anterior. “O que vocês fizeram no Nordeste enquanto vocês governaram?”, perguntou.
Flávio respondeu citando a transposição do São Francisco e o aumento do benefício social no governo Bolsonaro, além de prometer uma ferrovia pela região e manutenção do Bolsa Família. O senador também criticou a segurança em estados administrados pelo PT e prometeu trabalhar com governadores de todos os partidos.
Lula abriu o segundo bloco questionando o voto de Flávio Bolsonaro contra a ampliação da licença-maternidade quando era deputado estadual.
O senador reconheceu que mudou de posição após se casar e ter filhas. “Eu estava errado”, afirmou. “Hoje votaria completamente diferente.” O presidente contestou a justificativa: “Quando teve a chance de votar, não votou, agora que é candidato, ele vem aqui dizer que vai votar”.
A discussão avançou para as expressões usadas durante a campanha. Lula cobrou Flávio por chamar o Bolsa Família de “bolsa-farelo” e por se referir a ele como “nove dedos”.
“Se alguém aqui nesse púlpito sabe o que é trabalho sou eu”, declarou o candidato em seu direito de resposta. O senador respondeu: “Lula, se eu ofendi, eu te peço desculpas, não queria te ofender”, e perguntou se o presidente também pediria desculpas por problemas sociais de sua gestão.
Flávio citou o endividamento, o custo dos alimentos, a violência contra mulheres e o crescimento da população em situação de rua. Também criticou o momento escolhido para reajustar o Bolsa Família, anunciado há 17 dias do primeiro turno, e mencionou ações contra a Cracolândia na gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) como modelo a ser usado para usuários de entorpecentes.
Lula defendeu seu histórico de políticas sociais e afirmou que ainda há medidas a implementar. “Quem tem que pedir desculpa ao Brasil é a elite brasileira”, disse o presidente.
No tema da dívida pública, Flávio direcionou a discussão para as dificuldades financeiras das famílias e reiterou sua proposta de congelar dívidas de pessoas físicas e empresas. Lula questionou a autonomia do Banco Central, aprovada no governo Jair Bolsonaro, enquanto o senador defendeu a medida como forma de afastar interferências políticas. O presidente sustentou que a proposta do adversário reproduz iniciativas de renegociação de débitos de sua gestão, com leilões de dívidas.
Ao discutir saúde, Lula questionou declarações de nomes de um eventual governo Flávio sobre investimentos no SUS (Sistema Único de Saúde).
O senador respondeu que o “tesouraço” anunciado por sua campanha atingiria a “corrupção do governo”. O confronto retomou a divergência entre os candidatos sobre cortes e financiamento dos serviços públicos, com o presidente cobrando esclarecimentos sobre os planos do adversário para a rede de atendimento.
Flávio também acusou Lula de ter votado contra a implementação do SUS durante a Assembleia Constituinte. O presidente, por sua vez, voltou a criticar a condução da pandemia de Covid-19 pelo governo Jair Bolsonaro. A discussão encerrou o bloco com os dois recorrendo ao histórico político do adversário e de seus aliados para questionar os compromissos apresentados para a saúde pública.
Flávio Bolsonaro abriu a discussão sobre endividamento criticando o preço dos alimentos e acusando Lula de não recuperar o poder de compra da população. “O brasileiro antes parcelava um fogão, parcelava um micro-ondas, parcelava a geladeira, agora parcela o que tem dentro da geladeira”, afirmou.
Lula defendeu as iniciativas de renegociação de sua gestão e anunciou uma nova etapa. “Nós vamos resolver o problema da dívida do povo, porque nós queremos que o povo volte a consumir”, respondeu.
O senador propôs transformar a Caixa no “banco da prosperidade”, com crédito acessível e apoio à formalização de empreendedores das periferias. Também questionou as condições dos financiamentos habitacionais.
Lula, por sua vez, citou um leilão para comprar dívidas bancárias que, segundo ele, poderá superar R$ 150 bilhões, além de medidas para microempreendedores individuais, enquanto Flávio acusou o governo de repetir promessas sem solucionar o endividamento.
As apostas on-line também provocaram confronto. Lula defendeu a decisão de proibir as bets, relacionando a medida à proteção da renda e da saúde das famílias. “Nós queremos que o dinheiro do marido e o dinheiro dela seja para cuidar das crianças, e não para fazer aposta”, afirmou.
Flávio responsabilizou o governo pela expansão do setor e classificou a proibição como eleitoral. “Ele é o pai do Tigrinho”, disse. Lula devolveu a acusação ao ex-presidente Jair Bolsonaro: “O Tigrinho foi seu pai que criou”.
Na educação, Lula perguntou sobre as propostas de Flávio para o ensino integral, e o senador acusou o governo de cortar recursos da área. O presidente defendeu o histórico das gestões petistas, citou universidades, institutos federais e obras escolares e prometeu universalizar o ensino integral até o ensino médio. Também falou sobre a intenção de ampliar o Pé-de-Meia para universitários.
Flávio assegurou a continuidade do benefício: “É mentira, o Pé-de-Meia está mantido. Eu vou acabar com o pé de mentira”.
Flávio apresentou propostas de auxílio para famílias sem vagas em creches públicas, ensino técnico no contraturno e parcerias entre empresas e escolas. Defendeu reforço em português e matemática, aulas de tecnologia e inteligência artificial e a retomada de competições estudantis, incluindo esportes eletrônicos.
Lula sustentou que sua gestão ampliou as oportunidades educacionais e declarou: “Não existe nenhum país do mundo que conseguiu se desenvolver sem anos de investimento em educação”.
Na segurança, Lula questionou a atuação de Flávio em favor de um policial acusado de matar a menina Ana Clara, de cinco anos. O senador prestou solidariedade à mãe e sustentou que procura o autor do disparo. Também defendeu penas mais duras e castração química para estupradores. Lula propôs fortalecer as polícias e combater milícias e narcotráfico, além de acusar o adversário de proximidade com milicianos. “Vocês não conseguiram acabar, vocês se associaram”, afirmou.
Flávio reiterou sua promessa de retomar territórios dominados pelo crime: “Vou tratar bandido como bandido”.
No quarto bloco, de tema livre, Lula cobrou explicações de Flávio Bolsonaro sobre a acusação do jogador Richarlison de que o senador e o advogado Willer Tomaz teriam tomado posse de uma ilha em Angra dos Reis.
Flávio negou envolvimento e respondeu questionando um suposto presente de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao presidente. “Você ganhou um uísque Macallan que vale meio milhão de reais”, afirmou. Lula negou ter recebido a bebida e atribuiu ao adversário a proximidade com o ex-banqueiro.
A discussão avançou para o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio afirmou que a produção recebeu investimentos privados, sem recursos públicos, e que os valores destinados ao patrocínio foram aplicados na obra. Lula voltou a questionar a relação do senador com Vorcaro. “Você e Vorcaro parecem uma coisa só”, declarou.
O candidato do PL sustentou que o ex-banqueiro participou como investidor privado, enquanto o presidente contrapôs a atuação de seu governo à da gestão Bolsonaro no caso do Banco Master.
Os dois também divergiram sobre a entrega de documentos relativos aos sigilos bancário, telefônico e fiscal, compromisso discutido no debate da Band. Lula afirmou ter encaminhado informações suas, de Janja e de seu filho Fábio Luís à Suprema Corte e cobrou o adversário.
Flávio respondeu que sua documentação “está toda lá”. O presidente propôs uma nova abertura das contas à Justiça: “Faço outro desafio, eu e você, amanhã, abrir as contas minha e sua para que a Justiça apure”.
Lula questionou ainda a origem dos recursos usados por Flávio para comprar uma casa de 5,9 milhões de reais. O senador respondeu que seu dinheiro “vem do trabalho” e citou sua atuação como advogado.
Em seguida, acusou Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de manter patrimônio em nome de terceiros e questionou quem custeia suas despesas, mencionando a empresária Roberta Luchsinger. As acusações concentraram parte do confronto, com os candidatos cobrando esclarecimentos sobre patrimônio e relações pessoais.
Flávio também pediu a abertura das despesas do cartão corporativo da Presidência e afirmou que Lula o acusa de crimes que não cometeu. Nas considerações finais, o presidente respondeu que os gastos na gestão Jair Bolsonaro foram superiores aos de seu governo. “Eles gastaram quase 30% a mais do que nós”, declarou, orientando os eleitores a consultarem os dados na internet.
O senador, por sua vez, retomou suas propostas de segurança e defendeu classificar facções como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
Ao encerrar, Lula ressaltou sua trajetória política e pediu votos em nome da continuidade democrática. “Ou a gente mantém a democracia funcionando ou vamos ter um miliciano dentro do Palácio do Planalto”, afirmou, em ataque ao adversário.
Flávio disse que não fará promessas que não possa cumprir e apresentou a recuperação do poder de compra e a melhoria da segurança como prioridades de um eventual governo.