Agressores

Feminicídio deixou de ser questão de polícia e deve ser tratado na saúde pública, diz delegada Eugênia

Para a delegada, os agressores devem ser tratados no âmbito da saúde e educação

22/09/2019 14h51
Por: Redação Portal SRN
Fonte: Oito Meia
Delegada Eugênia Villa lamenta crimes contra mulheres (Foto: Ricardo Morais/OitoMeia)
Delegada Eugênia Villa lamenta crimes contra mulheres (Foto: Ricardo Morais/OitoMeia)

O feminicídio é um problema de saúde pública. O feminicídio deixou de ser uma questão da Polícia os agressores devem ser tratados no âmbito da saúde e da educação. A gente tem que chegar lá antes”, afirmou ao OitoMeia, a  delegada Eugênia Villa, atualmente superintendente de Gestão de Risco da Secretaria de Segurança Pública (SSP-PI) e doutoranda em Direito e Políticas Públicas (perspectiva em feminicídio).  

Neste ano, a Secretaria de Segurança Pública (SSP-PI) registrou pelo menos 18 casos de feminicídio no estado, segundo informações repassadas pela assessoria da secretaria. Do total de 18 feminicídios em 2019, 15 aconteceram no interior do estado. A maior parte envolveu cônjuge ou ex-conjugue da vítima. A Polícia ainda investiga outros dois supostos feminicídios no interior, que aconteceram na sexta-feira (22/09).

Uma das vítimas é Laise da Silva Carvalho, de 28 anos. A mulher que também era mãe de duas crianças, foi degolada na frente do filho, enquanto dormia em Nazária. A casa da vítima estava revirada, não apresentava sinais de arrombamento. Antes de morrer ela teria sofrido violência sexual. No início desta tarde o suspeito foi preso e encaminhado à Central de Flagrantes de Teresina.

O modos operanti do crime se repete em diversos outras ocorrências. Maria Aparecida, Andressa Prado, Antônia dos Santos. Mulheres que foram vítimas de um ciclo de violência, que tragicamente, transforma o Piauí no sétimo estado que mais mata o gênero no Brasil.

O FEMINICÍDIO EM NÚMEROS

De acordo com dados Plano Estadual de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, divulgado pela SSP, o feminicídio ocorre em maior número no interior do estado e atinge majoritariamente mulheres negras. Também foi apontado que essas mulheres geralmente eram lavradoras e estavam casadas ou em uma união estável. De acordo com a pesquisa, em mais de 80% dos casos não existiam registros anteriores de violência contra às mulheres nas unidades policiais, Porém, após o feminicídio, pessoas próximas costumavam declarar que a vítima sofria abusos por parte do agressor.

O crime ocorre durante à noite ou na madrugada na maior parte das ocorrências, sobretudo no interior da residência. Armas brancas foram as mais utilizadas para matar mulheres em crimes que envolveram razões de gênero. Mais das metades dos casos no estado foram cometidos com arma branca. A maioria das vítimas tinha a cor de pele parda (63%). Outras 18,5% mulheres eram pretas e 18,5 % brancas.

De acordo com os dados da Polícia divulgados pela TV Clube, 71% das vítimas no Piauí eram mães e em média deixam dois filhos.

“Não vamos apostar todas as fichas na polícia. A Polícia chegou, porém depois. Não se tinha mais o que fazer. Ficou uma criança de dois anos desamparada, sem mãe. E agora, o que vai ser dessa criança? É preciso que avaliemos o que está acontecendo nesta cidades. Não vamos dizer que a Polícia vai resolver isso, não é o Estado que vai resolver isso. Temos que chamar a sociedade para conversar sobre o que será feito. Não podemos combater o feminicídio apenas simbolicamente. Temos que ver onde erramos para que essa vida se perdesse”, apontou a delegada Eugênia.

CADEIA NÃO ESTÁ RESOLVENDO, DIZ DELEGADA SOBRE FEMINICÍDIO

Para a especialista, a principal política pública que existe atualmente no combate ao feminicídio no Piauí (e no Brasil) é a Polícia. A prática, porém, não é o bastante. Na perspectiva de crimes de gênero a ação dos agentes é de diligência, ou seja a coleta de provas de que aquele crime aconteceu. O Piauí conta com o aplicativo Salve Maria e o dispositivo tem um desempenho na capital, no entanto, quando falamos em mulheres interioranas, a nova tecnologia não chega. De acordo com dados da própria SSP, o alcance da ferramenta no interior do estado ainda é pequeno. O Salve Maria foi acionado em apenas 27 cidades dos 224 municípios do Piauí.

O dado é apenas um pequeno alarme para o ciclo de mortes que relatamos no interior. Existem campanhas de prevenção ao feminicídio. Entretanto, fora dos limites das grandes cidades, as rodas de conversas sobre o assunto não costumam ocupar muitas cadeiras ou lotar auditórios. A informação não chega à mulheres periféricas. Para a delegada, a falta de informação é um fator importante para entender porque as taxas de feminicídio são maiores no interior.

Eugênia pontua que o combate a violência contra a mulher deve ser levada a sério e ultrapassar as ações simbólicas. Para a especialista, o feminicídio deixou de ser uma questão da Segurança e passou a ser algo que deve ser tratado em conjunto com a Saúde e Educação. As ações no combate a este tipo de crime devem estar integradas, inclusive com a população. A maneira como a sociedade lida com o autor da violência atinge, e muito, a vida das mulheres. O alerta da delegada é no sentido de explicar que precisamos pensar além de punir e restringir.

“Precisamos trabalhar com o agressor e entender a mente dele. Esse agressor só vai cometer esse crime, ele é diferente de alguém que mata para roubar.  É uma pessoa que temos que levar à um serviço de saúde, é um sujeito que deve ser levado para programas de saúde e educação. Se combatermos o feminicídio apenas pelo viés de prender e aplicar medida protetiva, ele dará um jeito de burlar essas proibições para atacar a mulher. Esse cara vai se desvencilhar dessas amarras e vai matar. Os mecanismos estatais se esgotam e temos que trabalhar isso na saúde. A prisão não está resolvendo. A delegada de gênero está enxugando gelo. Não existe uma outra política pública que se diferencie da Polícia”, declarou.

 

São Raimundo Nonato - PI
Atualizado às 04h29
22°
Poucas nuvens Máxima: 36° - Mínima: 21°
22°

Sensação

23.9 km/h

Vento

73.1%

Umidade

Fonte: Climatempo
Municípios
Últimas notícias
Banner lateral interna posição 3
Mais lidas
Adsense lateral interna posição 5