Em solo piauiense, pesquisadores e trilheiros buscam preservar um arquivo vivo: gravuras rupestres, com o formato de pegadas de aves, espalhadas em rochas em um povoado na região de São João da Fronteira, município a 226 quilômetros da capital Teresina.
O grupo solicitou ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em julho de 2025 a catalogação e, principalmente, a proteção dos possíveis vestígios de tridáctilos (animais com três dedos em cada pata) que teriam vivido na região. O Iphan diz que não há datação do desenho.
Os pesquisadores afirmam que os vestígios podem oferecer pistas sobre a fauna que habitava o Nordeste brasileiro.
As gravuras estão localizadas no povoado Malhada de Pedras. Os moradores da região viram os desenhos pela primeira vez na década de 1980 e batizaram o local de Pés de Ema. Antes um assentamento, a área tornou-se um terreno particular.
Em fevereiro de 2024, o professor e pesquisador Gerson Meneses, do IFPI (Instituto Federal do Piauí), passou pela região e foi avisado pela comunidade das gravuras.
"Fui até lá conferir e vi que os desenhos são talhados na rocha em um leito de um rio. O nome Pés de Ema se dá em virtude de a maioria das gravuras ser em formato tridáctilo, bem semelhantes a uma pegada de ave", disse Meneses, que diz já ter registrado mais de cem sítios no estado.
O sítio ganhou destaque no mês passado, com a abertura da trilha Caminhos da Ibiapaba, do Piauí ao Ceará. A trilha conecta paisagens dos biomas caatinga, mata atlântica e cerrado. São 186 quilômetros que podem ser feitos a pé ou de bicicleta e é uma iniciativa para fortalecer o turismo local e a preservação ambiental. O projeto é uma parceria dos Ministérios do Meio Ambiente, Turismo e ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).
"O que torna o sítio Pés de Ema especial é principalmente o fato de ser de gravuras rupestres, o que é mais raro nessa região do Piauí", disse Meneses.
A Rede Brasileira de Trilhas, que ajudou a idealizar a rota Caminhos da Ibiapaba, convidou a estudante Carla Tessiane Barbosa, da UFPI (Universidade Federal do Piauí), para participar de uma ação sobre educação patrimonial em julho de 2025. A aluna, que está no último ano de arqueologia, conversou com moradores e cadastrou os sítios junto ao Iphan.
"O estado de preservação do sítio encontrava-se um pouco carente de cuidados. Foi possível verificar a presença de lodo sobre o matacão onde se localizam as gravuras, além de lixo descartado nas imediações", disse a estudante.
Barbosa destacou que a possível representação das pegadas de aves na região, bem como de outros animais, pode indicar uma conexão. "Uma ligação que esses povos do passado possuíam com a fauna local, enquanto elemento identitário, relações simbólicas, afetivas ou espirituais com estes animais."