Os brasileiros estão atolados em dívidas atrasadas como jamais estiveram. No ano passado, a concessão de crédito explodiu graças a um mercado agressivo — que cobra juros muito acima da Selic e parece pouco preocupado com o que acontece depois que o dinheiro entra na conta do cliente.
O tema é um dos destaques do episódio desta semana do A Hora,podcast de notícias do UOL com os jornalistas Thais Bilenky e José Roberto de Toledo, disponível nas principais plataformas. Ouça aqui.
O aumento da oferta de empréstimos bancários e de financeiras, do consignado, do rotativo do cartão de crédito e de outras modalidades caras leva primeiro ao crescimento do endividamento e, meses depois, ao aumento da inadimplência.
Pesquisadores como Lauro Gonzalez já descreveram esse processo como uma dinâmica de "oferta predatória de crédito": quando o mercado expande rapidamente modalidades caras e arriscadas, mas deixa para as famílias a conta dos juros e do atraso.
Segundo a série histórica da Serasa, o Brasil começou 2026 com 81,3 milhões de consumidores inadimplentes, o equivalente a metade da população adulta. É uma Alemanha de devedores.
A inadimplência vai mais longe. Telefonia respondia por 5%, prestações do varejo (8,3%) e de serviços (11,8%) são responsáveis por outro quarto da inadimplência. Juntos, esses quatro grupos somavam praticamente metade das dívidas.
Mas o problema não começou agora. Vem de longe.
Lá atrás, no fim do governo Michel Temer, o Brasil saía lentamente da recessão de 2015 e 2016. A economia voltava a crescer, mas devagar. O desemprego ainda era alto, a renda das famílias seguia comprimida e os bancos retomavam o crédito com cautela. Mesmo assim, a inadimplência já começava a subir. Em março de 2016, eram cerca de 59 milhões de inadimplentes. No fim de 2018, já eram mais de 62 milhões.
A história se acelera no governo Jair Bolsonaro.
Antes da pandemia, entre 2019 e o começo de 2020, a economia crescia pouco, mas o crédito avançava mais rápido. O saldo total das dívidas das famílias começou a subir de forma mais inclinada, puxado por empréstimos, financiamentos e cartão de crédito.
Então veio a pandemia.
A crise sanitária provocou um fenômeno raro: pela única vez em dez anos, a inadimplência caiu. E isso aconteceu justamente quando o PIB despencou, o desemprego explodiu e a renda caiu.
À primeira vista, parece contraditório. Afinal, não seria lógico imaginar que mais desemprego e menos renda gerassem mais inadimplência?
Mas os dados mostram outra coisa: quando a pandemia travou a economia, ela também travou o crédito.
Os bancos ficaram mais cautelosos. As famílias passaram a evitar novas dívidas. Houve auxílio emergencial, renegociação de contas, carência em financiamentos e menos consumo. O resultado foi uma freada brusca nas novas concessões de crédito. Sem tanto crédito novo entrando no sistema, o estoque de dívidas cresceu mais devagar e a inadimplência caiu temporariamente.
Foi uma melhora artificial. Não porque as famílias tivessem ficado financeiramente mais saudáveis, mas porque estavam tomando menos crédito.
Terminada a pandemia, a lógica se inverteu novamente.
A partir de 2021, o crédito voltou a crescer muito forte. O saldo das dívidas subiu de forma praticamente contínua. As concessões mensais de crédito mais do que dobraram em relação a 2016. E a inadimplência voltou a subir — primeiro devagar, depois cada vez mais rápido.
Esse é um ponto importante: a inadimplência não reage imediatamente. Ela vem depois.
Primeiro, o banco libera crédito. Depois, as famílias ampliam consumo e assumem prestações. Em seguida, parte dessas famílias começa a atrasar parcelas. Só depois aparece a explosão dos negativados.
Foi exatamente isso que aconteceu entre 2022 e 2025.
No governo Luiz Inácio Lula da Silva, o mercado de trabalho melhorou, a renda cresceu e o desemprego caiu. Mas, ao contrário do que muita gente imagina, isso não levou automaticamente à redução da inadimplência.
Na prática, emprego e renda melhores deram às famílias mais acesso ao crédito. Mais gente passou a conseguir empréstimos, financiamento, limite no cartão e parcelamento. E isso alimentou um novo ciclo de endividamento.
Os testes que nós fizemos com as séries históricas sugerem exatamente isso: o efeito direto de renda e emprego sobre a inadimplência parece ser fraco. O efeito mais forte parece ser indireto.
Menor desemprego parece levar a mais concessão de crédito. Mais crédito parece levar a mais endividamento. Mais endividamento leva, algum tempo depois, a mais inadimplência.