Economia Brasil
Eleitor atolado em dívidas é problema para Lula
Os brasileiros estão atolados em dívidas atrasadas como jamais estiveram.
03/04/2026 07h21
Por: Portal SRN Fonte: Uol
Imagem: Reprodução

Os brasileiros estão atolados em dívidas atrasadas como jamais estiveram. No ano passado, a concessão de crédito explodiu graças a um mercado agressivo — que cobra juros muito acima da Selic e parece pouco preocupado com o que acontece depois que o dinheiro entra na conta do cliente.

O tema é um dos destaques do episódio desta semana do A Hora,podcast de notícias do UOL com os jornalistas Thais Bilenky e José Roberto de Toledo, disponível nas principais plataformas. Ouça aqui.

O aumento da oferta de empréstimos bancários e de financeiras, do consignado, do rotativo do cartão de crédito e de outras modalidades caras leva primeiro ao crescimento do endividamento e, meses depois, ao aumento da inadimplência.

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Pesquisadores como Lauro Gonzalez já descreveram esse processo como uma dinâmica de "oferta predatória de crédito": quando o mercado expande rapidamente modalidades caras e arriscadas, mas deixa para as famílias a conta dos juros e do atraso.

Segundo a série histórica da Serasa, o Brasil começou 2026 com 81,3 milhões de consumidores inadimplentes, o equivalente a metade da população adulta. É uma Alemanha de devedores.

Em média, cada inadimplente tinha 4,02 dívidas negativadas, com ticket médio de R$ 1,6 mil por dívida e dívida média total de R$ 6.453,29 por CPF.
A inadimplência financeira — cartão, empréstimos e financiamentos — está na raiz do problema, mas ela transborda para a vida cotidiana. Em janeiro de 2026, contas de água, luz e gás respondiam por 22% das dívidas em atraso. Não à toa, em 2025, 17 milhões de consumidores tiveram sua luz cortada por falta de pagamento.

A inadimplência vai mais longe. Telefonia respondia por 5%, prestações do varejo (8,3%) e de serviços (11,8%) são responsáveis por outro quarto da inadimplência. Juntos, esses quatro grupos somavam praticamente metade das dívidas.

Mas o problema não começou agora. Vem de longe.

Lá atrás, no fim do governo Michel Temer, o Brasil saía lentamente da recessão de 2015 e 2016. A economia voltava a crescer, mas devagar. O desemprego ainda era alto, a renda das famílias seguia comprimida e os bancos retomavam o crédito com cautela. Mesmo assim, a inadimplência já começava a subir. Em março de 2016, eram cerca de 59 milhões de inadimplentes. No fim de 2018, já eram mais de 62 milhões.

A história se acelera no governo Jair Bolsonaro.

Antes da pandemia, entre 2019 e o começo de 2020, a economia crescia pouco, mas o crédito avançava mais rápido. O saldo total das dívidas das famílias começou a subir de forma mais inclinada, puxado por empréstimos, financiamentos e cartão de crédito.

Então veio a pandemia.

A crise sanitária provocou um fenômeno raro: pela única vez em dez anos, a inadimplência caiu. E isso aconteceu justamente quando o PIB despencou, o desemprego explodiu e a renda caiu.

À primeira vista, parece contraditório. Afinal, não seria lógico imaginar que mais desemprego e menos renda gerassem mais inadimplência?

Mas os dados mostram outra coisa: quando a pandemia travou a economia, ela também travou o crédito.

Os bancos ficaram mais cautelosos. As famílias passaram a evitar novas dívidas. Houve auxílio emergencial, renegociação de contas, carência em financiamentos e menos consumo. O resultado foi uma freada brusca nas novas concessões de crédito. Sem tanto crédito novo entrando no sistema, o estoque de dívidas cresceu mais devagar e a inadimplência caiu temporariamente.

Foi uma melhora artificial. Não porque as famílias tivessem ficado financeiramente mais saudáveis, mas porque estavam tomando menos crédito.

Terminada a pandemia, a lógica se inverteu novamente.

A partir de 2021, o crédito voltou a crescer muito forte. O saldo das dívidas subiu de forma praticamente contínua. As concessões mensais de crédito mais do que dobraram em relação a 2016. E a inadimplência voltou a subir — primeiro devagar, depois cada vez mais rápido.

Esse é um ponto importante: a inadimplência não reage imediatamente. Ela vem depois.

Primeiro, o banco libera crédito. Depois, as famílias ampliam consumo e assumem prestações. Em seguida, parte dessas famílias começa a atrasar parcelas. Só depois aparece a explosão dos negativados.

Foi exatamente isso que aconteceu entre 2022 e 2025.

No governo Luiz Inácio Lula da Silva, o mercado de trabalho melhorou, a renda cresceu e o desemprego caiu. Mas, ao contrário do que muita gente imagina, isso não levou automaticamente à redução da inadimplência.

Na prática, emprego e renda melhores deram às famílias mais acesso ao crédito. Mais gente passou a conseguir empréstimos, financiamento, limite no cartão e parcelamento. E isso alimentou um novo ciclo de endividamento.

Os testes que nós fizemos com as séries históricas sugerem exatamente isso: o efeito direto de renda e emprego sobre a inadimplência parece ser fraco. O efeito mais forte parece ser indireto.

Menor desemprego parece levar a mais concessão de crédito. Mais crédito parece levar a mais endividamento. Mais endividamento leva, algum tempo depois, a mais inadimplência.