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Instabilidade na renda trava recuperação dos mais pobres

Cerca de 30 milhões sofrem com a incerteza provocada pelo efeito sanfona de benefícios sociais.

12/09/2021 às 21h24
Por: Weslley Moreira Fonte: Folha de SP
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Imagem: reproduçãoA ajudante de salão de beleza Marinalva Ferraz, que não consegue trabalho fixo - Karime Xavier/Folhapress
Imagem: reproduçãoA ajudante de salão de beleza Marinalva Ferraz, que não consegue trabalho fixo - Karime Xavier/Folhapress

Primeiro, Kelcilene de Souza, 44, tirou a carne do cardápio; em seguida, cortou as frutas. Sem emprego e dependendo ainda mais do auxílio emergencial para ajudar a alimentar a família, ela hoje agradece por ainda estar conseguindo comprar arroz e feijão.

"Como sou trabalhadora doméstica e tenho problemas de saúde, ficou ainda mais difícil conseguir um emprego durante a pandemia. Ninguém queria dar trabalho e tinha medo de ficar doente. Cheguei a receber R$ 120 por mês, mas a alegria do pobre dura pouco e cortaram pela metade", conta.

Com a redução do benefício no segundo trimestre deste ano, a família, que mora de favor, nem consegue mais pagar as contas de água e luz. "A gente reduz a compra do supermercado para pagar a internet para as crianças estudarem. Parecia que as coisas iam melhorar, mas tudo ficou muito difícil."

A constatação de piora nas condições de vida não é exclusiva da família de Kelcilene.

 

Kelcilene de Souza é empregada doméstica e ficou sem trabalho durante a pandemia - Karime Xavier/Folhapress

Os altos e baixos enfrentados pelas famílias mais pobres durante a pandemia parecem repetir o mesmo roteiro por todo o país: desemprego, pagamento do auxílio emergencial, fim do benefício em dezembro e volta dele em abril (com a metade do valor).

Com a entrada e saída de recursos em um curto intervalo de tempo, esses brasileiros vivem em uma espécie de efeito sanfona da renda —já tinham pouco, perderam quase tudo e agora brigam para recuperar apenas uma parte.

Em um intervalo de pouco mais de um ano, o número de pessoas em situação de pobreza no país, que era de mais de 23 milhões (11%) no fim de 2019, chegou a cair para cerca de 9,8 milhões (4,3%) na metade do ano passado, momento em que o auxílio emergencial chegou a mais famílias.

Com o fim abrupto do benefício, o número de mais pobres explodiu no primeiro trimestre de 2021, indo a mais 34,3 milhões (16,1%), para mais tarde voltar a cair, para os atuais 27,7 milhões (12,98%), com a volta do benefício em abril.

Os dados da FGV Social consideram famílias que ganham até R$ 261 por pessoa.

"O país tem crescido pouco e a desigualdade aumentou nos últimos anos. Sobreviver sem muitos recursos já é complicado, mas a instabilidade de renda coloca um problema extra nessa equação", diz Marcelo Neri, coordenador da FGV Social.

Neri também lembra que a queda de renda na metade mais pobre da população chegou a 21,5% desde o último trimestre de 2019, antes da pandemia. Entre os 10% da população com melhores condições de vida, essa perda foi de 7,16% no mesmo período.

"Praticamente todas as famílias tiveram alguma flutuação de renda nos últimos anos, mas para os mais pobres, essa inconstância pode significar a falta das condições mais básicas em casa."

Antes da pandemia, essas famílias já haviam passado por dificuldades com a recessão de 2015 e 2016, que empurrou mais de 4 milhões para a pobreza. Com a recuperação tímida da economia, entre 2017 e 2019, e as filas de pessoas aguardando para entrar no Bolsa Família, a melhora no cotidiano dessas famílias também foi lenta.

"Uma diferença importante da crise atual para a anterior é que as famílias mais pobres agora sofreram quase que uniformemente, por não conseguirem trabalhar", diz Neri. Nas crises com raiz econômica, ele lembra que famílias e amigos acabam se apoiando.

Um outro levantamento conduzido por ele aponta isso: 61% dos brasileiros mais pobres contam com a solidariedade da família ou de amigos quando passam por algum aperto financeiro.

"Os brasileiros mais pobres são mais sujeitos a esses altos e baixos e dependem que seus conhecidos estejam em uma situação melhor para ter alguma ajuda. A pandemia tirou o emprego de muito mais gente e aumentou a dependência de programas sociais."

O professor ressalta que o esforço para que os mais pobres tenham um aumento de renda também flutua nos anos eleitorais, como 2022. "Em anos de eleição, os programas de transferência costumam receber mais recursos, que duram até o ano seguinte."

"A vida do brasileiro mais pobre é mais do que uma montanha-russa: é um brinquedo em que o carrinho quebra no meio do caminho", diz Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco e um dos criadores do Bolsa Família.

"Não são apenas altas e quedas de renda, mas a sensação de que a vida não avança. A pandemia fez com que, pela primeira vez, o trabalho informal não conseguisse amortecer a alta do desemprego e não há uma estratégia clara do governo que combata a crise agora."

Weslley Moreira
Weslley Moreira
Sobre Editor e Fundador do Portal SRN. Conteúdo diverso!
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