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Gás de cozinha tem alta e complica orçamento de famílias brasileiras

Desde maio do ano passado, no início da crise, seu preço subiu cinco vezes mais que a inflação.

04/06/2021 09h57
Por: Weslley Moreira - (86) 98195 2377 Fonte: Portal SRN
Imagem: reprodução
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Produto essencial nas residências, o gás de cozinha pesou ainda mais no bolso das famílias mais pobres neste período de pandemia de covid-19. Nunca antes o botijão custou tão caro. Desde maio do ano passado, no início da crise, seu preço subiu cinco vezes mais que a inflação. Com o desemprego batendo à porta, o custo do gás virou um problema social, a ponto de merecer políticas públicas emergenciais dos governos do Ceará e Maranhão.

O tema foi tratado também pelo presidente da República, que manifestou a intenção de recorrer à Petrobras para baratear o produto. Mas, até agora, não houve qualquer manifestação pública do governo federal e da empresa sobre isso.

O preço do botijão disparou, de fato, a partir do segundo semestre do ano passado. O pior momento, no entanto, foi neste ano. De janeiro a abril, subiu 11,45% e nos 12 meses iniciado em maio de 2020, 17,25%, segundo o IPC-S, indicador de inflação do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), utilizado em reajustes salariais e de aluguel. No mesmo período, a inflação subiu 3,5%, cinco vezes menos do que o gás de cozinha.

“O GLP é o principal energético usado no preparo de alimentos por famílias de baixa renda. É o gás que entra em comunidades do Brasil todo. Algo que sobe mais que a média do salário exige muito esforço das famílias. Num nível de desemprego elevado como o atual, é ainda mais sentido. Ficar sem gás é ficar sem comida”, afirmou André Braz, coordenador adjunto do Índice de Preço ao Consumidor do Ibre/FGV.

O economista acredita que o encarecimento do produto vai aparecer na próxima Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE. A última foi realizada em 2018 e registrou que a média dos brasileiros gasta 1% do orçamento com o gás de cozinha. O aluguel pesa 3,6% e o gás natural, 0,12%.

Na casa de André Lima e Silva, em Fortaleza, por causa da alta do preço do botijão, as refeições passaram a ser preparadas na vizinhança. “Até receber o vale do governo, a gente ficou três dias sem gás. Até o mingau da neném a gente pedia para a vizinha fazer”, conta o padeiro, desempregado desde o início do ano passado. Sem renda, ele e a mulher passaram a sustentar os cinco filhos com a venda de salgadinhos. Mas, por causa do preço do gás, até o ‘bico’ ficou inviável.

A alta do produto está prejudicando também os negócios de Marcos Magalhães, responsável por um buffet carioca. “O gás aumenta, a gente tem que repassar o valor para os clientes, só que não pode repassar na íntegra, porque, infelizmente, os clientes não têm aumento. Ninguém está tendo aumento no País. É complicado”, afirmou.

Em evento, no mês, passado Bolsonaro disse que conversaria sobre o tema com o novo presidente da estatal, Joaquim Silva e Luna. “Estamos trabalhando com o novo presidente da Petrobras em como diminuir o preço do botijão na origem. Hoje está em R$ 42, dá para diminuir”, afirmou o presidente, em discurso no Mato Grosso do Sul, no último dia 14. Ele não informou, porém, com quem está discutindo e a posição do presidente da Petrobras ao seu questionamento.

Desde que assumiu o cargo, em 19 de abril, Silva e Luna não mexeu no preço do gás liquefeito de petróleo (GLP) produzido em suas refinarias. O botijão de 13 kg é a versão residencial do produto. O último reajuste aconteceu no dia 2 de abril, o quarto no ano, ainda na administração do seu antecessor, Roberto Castello Branco.

Questionada, a Petrobras, por meio de sua assessoria de imprensa, respondeu que não há previsão de reajustes de preços de GLP com frequência mínima mensal. “Reiteramos que os reajustes são realizados a qualquer tempo, sem periodicidade definida, de acordo com as condições de mercado e de análise do ambiente externo. Isso possibilita à companhia competir de maneira mais eficiente e flexível e evita o repasse imediato, para os preços internos, da volatilidade externa causada por questões conjunturais”, afirmou.

Ainda assim, o preço final do GLP permanece no patamar mais elevado da série histórica divulgada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em março, último dado divulgado pela reguladora, estava custando R$ 83,17, na média do País. Como a Petrobras reajustou mais uma vez em abril, é possível que a estatística mais recente ainda revele novo recorde.

Professor do Instituto de Economia da UFRJ, Adilson de Oliveira avalia que qualquer solução para o gás passa pela estabilização do preço, o que pode ser conseguido com a criação de um fundo de estabilização, como vem sendo estudado pelo governo. Ele lembra que, no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi adotado o ‘Auxílio Gás’ e, no de Luiz Inácio Lula da Silva, o benefício foi incorporado ao Bolsa Família.

“O governo federal fala, mas ainda não colocou na mesa a sua proposta. É preciso saber onde o governo quer chegar, ou começam a aparecer propostas extemporâneas para resolver lobbies específicos, que, em vez de ajudar, atrapalham”, disse.

Sérgio Bandeira de Mello, presidente do Sindigás, que reúne as empresas distribuidoras de GLP, afirma que não há qualquer movimento da entidade para que o governo apresente uma solução. “Não temos pleito nosso. É um debate que podemos assessorar do ponto de vista técnico. Essa é uma decisão de política pública”, afirmou.

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