Com 10 mil peças produzidas por mês e encomendas feitas para o Museu de Arte de São Paulo (Masp), a fábrica de cerâmica da Serra da Capivaraconfecciona peças que contam o passado do homem americano e honram o legado da arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, falecida em junho deste ano.
Fundada há 31 anos em Coronel José Dias, no Sul do Piauí, a fábrica foi idealizada por Niède com o propósito de gerar emprego e renda para os moradores locais e das outras cidades que compõem o Parque Nacional da Serra da Capivara, considerado patrimônio cultural da humanidade pela Unesco.
Segundo o diretor da fábrica, Marcos Oliveira, a arqueóloga levou um ceramista japonês ao lugar no começo da década de 1990. O profissional ensinou o ofício aos artesãos piauienses e instalou o primeiro forno.
Dos quatro artesãos iniciais, a empresa cresceu e conta atualmente com 41 deles. Há ainda pessoas que trabalham na loja, no escritório e no processo de embalagem das peças, o que soma mais de 60 trabalhadores.
"Desde o início, a doutora Niède priorizou práticas sustentáveis: o uso de argila retirada de lagoas, que evita a erosão e contribui para o aumento da capacidade de retenção de água nas áreas secas; e o uso de forno a gás, eliminando a necessidade de desmatamento para a queima", aponta o diretor.
A fábrica produz, de forma 100% artesanal, utilitários como pratos, copos, canecas e travessas, e itens decorativos, como vasos e esculturas trazendo pinturas das inscrições rupestres encontradas no parque. Além do Masp, a empresa atende a outros clientes de São Paulo, Brasília e de todo o país.
Os turistas que visitam o Parque Nacional da Serra da Capivara acompanham de perto as etapas do processo artesanal, desde o preparo da argila, que passa por decantação, secagem e limpeza, até a modelagem, feita em torno, formas ou com placas.
Após a primeira queima, as peças são esmaltadas com minérios naturais, recebem a pintura inspirada nas figuras rupestres e passam por uma segunda queima a 1.240 °C — adquirindo cor, brilho e resistência.
"Muitos [turistas] produzem suas próprias peças, aprendem sobre a origem da argila e vivenciam o processo criativo ao lado dos artesãos. Eles saem com a sensação de que, ao comprar ou interagir com a cerâmica, estão contribuindo diretamente para o desenvolvimento da população local", afirma o secretário de Turismo de Coronel José Dias, Arivan Lima.
O passeio pelo parque inclui a oficina e termina na loja, onde é possível adquirir as peças. A fábrica funciona de segunda a sexta, das 7h30 às 17h30, e aos sábados, das 8h às 12h.
Antes da morte de Niède, os artesãos e trabalhadores da fábrica tiveram de lidar com outra perda: a administradora do lugar, Girleide Oliveira, que faleceu em janeiro de 2025.
De acordo com Marcos Oliveira, a atuação de Girleide contribuiu para o "salto decisivo" no crescimento e reconhecimento da empresa, uma vez que ela priorizou a expansão do mercado do artesanato produzido na Serra da Capivara.
"Ela começou a buscar um mercado fora, participando de eventos de artesanato, viajando o Brasil todo. Com isso, começamos a vender mais e conseguir clientes. Hoje o turismo tem crescido bastante, o que fortalece ainda mais nosso trabalho", completa o diretor da fábrica.