Uma rádio baiana que pertence a um sócio de Sidônio Palmeira, atual ministro da Secom (Secretaria de Comunicação Social) do governo Lula (PT), tem espaço privilegiado na agenda do presidente. Só no atual mandato, Lula já deu três entrevistas à emissora.
O que aconteceu
A Rádio Metrópole FM, de Salvador, é uma das campeãs de entrevistas com Lula. Segundo levantou o UOL, os únicos veículos de comunicação que já tiveram três encontros com o presidente no atual governo são essa emissora e a Rádio Itatiaia, de Belo Horizonte. A Rádio CBN também já fez três entrevistas, mas duas delas foram por meio de afiliadas regionais.
A emissora pertence a um sócio de Sidônio. O publicitário Chico Kertész, dono da rádio, também dirige a agência de publicidade Nordx, ao lado do ministro e de mais dois sócios. A empresa coordenou a comunicação da campanha do petista em 2022 e ganhou quase R$ 38 milhões para produzir programas do horário eleitoral gratuito e peças para rádio, TV e internet.
Apresentador é próximo de Lula há mais de 30 anos. O radialista Mário Kertész é quem faz as entrevistas com Lula. Pai de Chico, Kertész afirmou ao UOL que já entrevistou o petista pelo menos 20 vezes desde o início da década de 1990, quando interrompeu a carreira política e comprou a emissora. Antes, ele foi prefeito de Salvador por duas vezes e secretário do ex-governador Antônio Carlos Magalhães (morto em 2007), com quem rompeu posteriormente.
Entrevistas têm tom elogioso e sem críticas. Nos encontros exclusivos com Lula, em janeiro e outubro de 2024, Kertész exaltou medidas do governo e atributos pessoais, como a "vitalidade" do presidente. Em ambas as ocasiões, ele disse em tom de brincadeira que os críticos chamam a rádio de "puxadinho do PT" na Bahia e insinuam que o partido financia a emissora.
Não há favorecimento da Secom de Lula à Metrópole. O UOL apurou que a emissora recebeu R$ 53 mil em verbas publicitárias do governo em 2023 e R$ 12 mil em 2024. Com esses valores, a Metrópole foi apenas a 217ª rádio que mais recebeu do governo em 2023, e a 761ª no ano passado. As rádios que lideram o ranking ganharam mais de R$ 1 milhão cada.
Kertész reconhece ter afinidades com Lula, mas nega intenção de promovê-lo nas entrevistas. O radialista afirmou que a linha editorial da emissora é "absolutamente contra a extrema direita", mas que não combina as perguntas com Lula antes dos encontros nem fica "levantando a bola para ele chutar". Kertész afirmou, ainda, que Lula sempre pede para falar à rádio quando vai à Bahia.
A Secom afirma que Lula concede entrevistas conforme sua disponibilidade de agenda. A pasta destaca que o presidente deu, somente em visitas à Bahia, cinco entrevistas para três rádios diferentes, somando encontros exclusivos ou compartilhados com mais de uma emissora.
A gente abre espaço para todo mundo, mas nós temos uma linha editorial absolutamente contra a extrema direita e contra Bolsonaro e seus asseclas. É por isso que as pessoas dizem que a rádio é próxima do PT. Mas eu faço perguntas a Lula que não são nada preparadas, como se eu estivesse levantando a bola para ele chutar. Não existe isso, a entrevista corre normalmente.
Radialista Mário Kertész
Relação de 30 anos
Relação começou na época Lula x Collor. Kertész conta que fez uma cobertura favorável ao petista nas eleições presidenciais de 1989, contra Fernando Collor, e que anos depois foi apresentado a ele por Nelson Pelegrino, ex-deputado e um dos fundadores do PT.
O radialista afirma ter furado, à época, um bloqueio contra o PT na imprensa baiana. Nos anos 1990, segundo ele, o ex-governador ACM e seus sucessores não davam espaço a Lula e a outros nomes do partido, como o hoje senador Jaques Wagner (PT-BA), e nessa época a relação entre eles começou a se estreitar.
Kertész conta que trabalhou, de forma voluntária, na produção de rádio para a campanha presidencial de Lula em 2002. Ele afirma que recusou um convite de Lula para integrar o governo federal a partir de 2003, mas que manteve laços com o presidente desde então
A Rádio Metrópole fez duas entrevistas com Lula pouco antes da prisão na operação Lava Jato. O petista falou à rádio nos dias 6 e 15 de março de 2018, menos de um mês antes de ser preso. Em junho, quando Lula já estava detido na sede da Polícia Federal em Curitiba, Kertész leu ao vivo uma carta escrita pelo presidente.
Quando eu vim trabalhar no rádio, há mais de 30 anos, eu abri espaço para o PT, que não tinha abertura em nenhum meio de comunicação aqui de Salvador, da Bahia. Ordem explícita de Antônio Carlos Magalhães e seus aliados. E eu abri espaço, inclusive para Nelson Pelegrino, para Jaques Wagner, para todos do PT, o que me custou, inclusive, perder os anúncios do governo estadual.
Mário Kertész
Rádio pró-Bolsonaro no interior paulista
Ex-presidente Jair Bolsonaro também tem relação estreita com rádio. Assim como a Metrópole simpatiza com Lula, a rádio Auriverde Brasil, de Bauru, no interior de São Paulo, não esconde seu alinhamento com Bolsonaro. A rádio fez dez entrevistas com Bolsonaro no ano passado, num período de 3 meses. Foram nove apenas no período das eleições de 2024, incluindo quatro lives na mesma semana.
Ex-comentaristas da Jovem Pan migraram para a Auriverde. Após ter sido desligada da rede, em outubro de 2023, a emissora de Bauru contratou Rodrigo Constantino, Alexandre Garcia e Cristina Graeml (PMB), que deixou o posto no final de junho para se candidatar à Prefeitura de Curitiba.